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Um santo jovem e leigo

A admirável vida do Beato Pier Giorgio Frassati

· Escritura e História

Neste ano dedicado ao laicato o ISPA traz breves textos sobre leigos exemplares, modelos de vida cristã para aqueles que se dedicam à esfera temporal, começamos falando do Beato Pier Giorgio.

Pier surpreende aqueles que imaginam que uma vida santa se dá longe do mundo em um triste isolamento, pois durante sua vida sempre aproveitou as belezas da criação, gostava de viajar, sair com os amigos, ir em festas, praticar esportes e ser um assíduo participante da vida política.

Nasceu em Turim, na Itália, no ano de 1901, em uma família rica em bens materiais, mas nada cristã. Seu pai era agnóstico e sua mãe indiferente à religião, porém, a Providência Divina preservou-o  em uma vida de amor a Deus desde sua infância, participando de grupos de oração e até mesmo recebendo a permissão para comungar diariamente pelo padre de sua escola, algo raro para a época.

Enquanto deixava a infância ia cada vez mais sentindo uma necessidade de ajudar os pobres, buscando ao máximo realmente praticar a opção preferencial por eles que a Igreja prega. Em sua juventude, seguindo o exemplo de Nossa Senhora nas Bodas de Caná , Pier andava pelas ruas em bairros mais humildes buscando pessoas para ajudar, levava alimento aos que passavam fome, roupas para os que tinham frio e também buscava parentes perdidos para famílias em crise, chegando a ir nos lugares mais perigosos possíveis para ajuda-los, tentando consertar suas vidas individualmente, e das famílias coletivamente, se abnegando totalmente pelos outros, não se preocupando em entrar em conflito com pessoas perigosas se fosse por um bem maior. 

Seu pai não lhe dava muito dinheiro, não gostava da maneira que ele seguia a vida, e mesmo ganhando pouco, Pier doava grande parte do que tinha, usando para si serviços mais precários, andando na pior classe dos trens, por exemplo, visando o bem do próximo sem se importar  consigo mesmo. Já que possuía vocação laical precisava de uma profissão para se sustentar e ajudar a sociedade, assim,  decidiu estudar Engenharia Industrial Mecânica no curso superior para ajudar os mineiros, que tanto sofriam, e se dedicar totalmente à eles. Nas aulas da faculdade geralmente estava morrendo de sono, pois havia passado a noite anterior perambulando pela cidade buscando ajudar os mais necessitados, inclusive levando para a mansão de seus pais os que precisavam de mais ajuda.

Porém, Pier não ajudava somente com bens materiais, ele sabia que estes são finitos, fadados à destruição, ele visava principalmente levar aos pobres o que há de mais precioso, a felicidade perfeita, a vida eterna, levando famílias de volta ao Corpo Místico de Cristo que nos traz a salvação, a Igreja Católica.

Sendo um leigo que buscava à santidade, Pier se engajou em uma das áreas da vida temporal mais importantes para praticar a Caridade, a política. Como o Papa Francisco nos lembra, “Envolver-se com política é uma obrigação para um cristão”, e Pier já sabia disso, sendo um militante contra o fascismo – que emergia no tempo de sua vida na Itália com Mussolini – e contra o comunismo que era liderado por Gramsci na Itália de sua época, defendendo a democracia cristã. Foi um dos fundadores do jornal Momento, jornal este que seguia os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja à risca, tendo como guia a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, diferente de muitos que se dizem católicos atualmente e acham que seus gostos políticos, guiados pela sua concupiscência, são superiores ao que o Magistério ensina.

Durante o regime fascista, Frassati e seus amigos católicos foram protestar em Roma juntamente com um bispo e foram brutalmente dispersados e acabaram por ser aprisionados, mas isso não foi um empecilho, pelo contrário, impulsionou-o a se dedicar mais ainda na esfera temporal visando criar uma sociedade moralmente sã contra os erros do Modernismo, se unindo a Cristo nos momentos de dificuldade e ganhando força para lutar mais, participando e militando no Partido Popular Italiano, seguindo sua máxima: «A Caridade não é suficiente: precisamos de reformas sociais»

Abaixo um trecho no qual Pier ensina ao católico leigo a lutar pelo reinado social de Cristo:

Nós - que, por graça de Deus, somos católicos - não devemos gastar os anos mais belos da nossa vida como desgraçadamente fazem tantos jovens infelizes que se preocupam com gozar os bens terrenos e não produzem nada de bom, mas que apenas fazem frutificar a imoralidade da nossa sociedade moderna.
Devemos treinar-nos, a fim de estarmos prontos para travar as lutas que, seguramente, teremos de combater pela realização do nosso programa e para, assim darmos à nossa Pátria, num futuro não muito longínquo, dias mais alegres e uma sociedade moralmente sã. Mas para tudo isto, é preciso: a oração contínua para obter de Deus a graça sem a qual as nossas forças são vãs; organização e disciplina para estarmos prontos para a ação no momento oportuno e, finalmente, o sacrifício das nossas paixões e de nós mesmos, porque sem isso não se pode atingir o objetivo.

Como o trecho acima demonstra, a oração é a base de nossas ações, é através dela que recebemos forças de Deus para nos santificarmos e lutarmos pela Verdade. Pier era um homem de muita oração, sempre saudava a Mãe de Deus com um carinho especial, sendo encontrado diversas vezes pelo seu pai dormindo ajoelhado com um Rosário nas mãos. As orações deram muitas forças à Pier, culminando em uma ocasião na qual militantes do Partido fascista invadiram sua casa e ele os expulsou a todos usando somente seus punhos, sozinho! E ainda os perseguiu pelas ruas, protegendo sua família como um valente guerreiro, agindo verdadeiramente como um homem.

Mas, como Santo Tomás de Aquino nos lembra, o brincar é necessário para a vida humana, assim como as amizades, e nada disso faltava a Pier. Frassati era um grande brincalhão, tirava sarro de seus amigos e desfrutava da companhia deles, saía com eles e se divertiam, fumavam tabaco e riam um dos outros, vivendo uma vida muito alegre como deve ser a de um cristão. Buscava orar junto a eles, como ele dizia: “Infelizmente uma por uma das amizades terrenas produzem dores no nosso coração pelo afastamento. Por isso, queria que fizéssemos um pacto indestrutível que não conhece limites temporais nem fronteiras físicas: a aliança da oração”. 

Com eles gostava muito de praticar esportes, principalmente o montanhismo, sendo um destacado atleta, nomeado patrono dos desportistas pelo Papa São João Paulo II. Durante as escaladas  nas montanhas, quando tinha companhia, levava as mochilas dos companheiros quando estes estavam cansados e até mesmo emprestava suas botas quando necessário, quando ia sozinho, aproveitava o momento para rezar e meditar. 

Ele se apaixonou por uma garota e pensava em se casar, mas sua mãe não aprovava a menina por ser mais humilde materialmente e como seus pais estavam brigando muito, quase se separando, ele então pensou: “por quê criar uma nova família para destruir outra?”. Dessa maneira, Pier se tornou membro terciário da Ordem dos Dominicanos, vivendo uma vida casta, virtuosa e imensamente alegre, sendo chamado de homem das oito beatitudes por São João Paulo II.

Pier morreu de poliomielite em 1925, com apenas 24 anos. Acredita-se que contraiu a doença de um dos pobres que ajudava pela proximidade  e carinhoso contato que tinha com eles. Sua família esperava um funeral simples com poucas pessoas participando, amigos e parentes, porém, não foi o que ocorreu, no funeral de Pier compareceram milhares de pessoas, principalmente de pobres da cidade que amavam o seu querido amigo que tanto os ajudava, que ia nos cantos mais remotos da cidade para lhes levar sustento material e a palavra Divina. Atualmente ele  está enterrado na Catedral de Turim.

Assim sendo, a vida de Pier demonstra claramente como um leigo pode alcançar o cume da santidade caso busque agir na realidade em que está imerso, no seu entorno, busque amar a Deus com todo o seu entendimento, em todas as ocasiões, indo atrás dos mais necessitados e pobres e utilizando as instituições temporais para dar glória a Cristo e levar almas para o Céu. Muitos leigos são omissos pensando ser função dos sacerdotes e dos religiosos essa Caridade total, tanto de bens materiais quanto do estudo da Doutrina e ação a partir dela, mas Pier vem nos mostrar que nós leigos podemos e devemos nos entregar totalmente a Caridade, com toda a nossa vida, vivendo uma vida alegre, completa e realizada, e assim, alcançar a verdadeira felicidade de acordo com nossa vocação.

Beato Pier Giorgio Frassati, rogai por nós!

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