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Resenha de livro: Militante

O livro “Militante: restaurando o catolicismo autêntico”, do católico norte-americano Michael Voris, traduzido e publicado em português pela Editora CDB, é uma análise sobre o estado atual da Igreja nos Estados Unidos da América, as causas da atual crise e a origem de toda sorte de males que ameaçam a Barca de Cristo naquele país, mas que como veremos se estende a todo o orbe católico.

 

O Autor no prólogo nos oferece já um resumo de tudo o que se poderá ler em sua obra, ao comentar o que a “Igreja dos Legais” – expressão que será usada para identificar a escória da fé católica – assumiu como norma máxima e o que se propõe a implementar dia-a-dia no seio do catolicismo. É cheio daquela parresia, tão comum aos homens católicos de todos os tempos, que Michael Voris denuncia [1]:

"Foi nessa “Igreja” que eu e minha geração crescemos, e foi ela que tomou o controle da situação e dita as regras hoje. Ela se ancora no comprometimento com o mundo baseado nas emoções e não aceita que ninguém seja ofendido – exceto Deus. Nesse processo, cujo resultado foi intencional, a identidade católica foi aniquilada."
 

Observando que a característica da Igreja enquanto peregrina neste mundo é ser militante (Cap. 1), Voris, reafirma a doutrina, convocando-nos a não titubearmos na luta contra as forças do mal, não sem o auxílio da graça e da comunhão dos salvos (a Igreja Padecente e Triunfante) nesta guerra. Deixando claro que Nosso Senhor repugna aos mornos, não nos é possível uma conduta indiferente perante o estado atual das coisas. Um católico morno é pior do que aqueles que decididamente lutam contra a fé, sua condição no inferno é medonha.

Uma crise singular (Cap.2) assola o mundo moderno, a história vê uma suscetível degradação intelectual, política, moral e religiosa, o homem que começa por negar a Igreja de Deus, vê a majestade (autoridade) ser cada vez mais negada, a perversidade dos costumes segue-se da negação da transcendência, da realidade e da natureza humana. Esta tempestade (Cap.3) traz os ventos do individualismo, da revolução sexual, das apostasias, e ela não seria possível se Marinho Lutero (Cap.4) não houvesse soprado sobre o mundo suas doutrinas diabólicas, não sem o ambiente produzido pela baixa Idade Média. É a negação da Verdade, que levará os homens à feiura e a maldade que hoje nos deparamos.

A autoridade do homem é ele mesmo, é este o novo ideal e fundamento da “liberdade” (Cap. V), ela pressupõe a negação da verdade mesma, fonte de toda a autoridade. Somente esta nova concepção pode dar a licença que a humanidade necessitava para seus atos imorais, que culminará no infame “direito” das mães matarem seus filhos no próprio ventre. Nisso, mostra Voris, está fundamentada a ideia do Americanismo (como filho da própria modernidade).

Um feminismo radical (Cap.5-6) se impôs sobre toda as coisas. Note-se bem: a Igreja é feminina, é a esposa do Cordeiro, ela cuida, educa e conforta, é “Mãe e Mestra”, no entanto, como uma boa Esposa, ela é submissa ao Homem, a Nosso Senhor Jesus Cristo. Por ela, Ele se sacrificou, defendendo-a e dominando-a. Ela depende de Deus e só tem razão de ser porque foi fundada por Ele. Assim, é complementar e não antagônica a relação entre o feminino e o masculino. É justamente aí que se fundamenta a relação entre o homem e a mulher - guardada suas proporções e o lado obscuro que a natureza humana é passível - tendo como sinal a relação da Igreja e Nosso Senhor.

“Somos católicos americanos ou americanos católicos?” (p.131): esta indagação expressa a problemática do americanismo, quando os católicos submetem sua cidadania primeira, ou seja, de serem filhos da Igreja, à segunda, de serem cidadãos do Estado. Assim começa-se a destruir a vida da Igreja por sua própria estrutura. Esse é o triunfo dos modernistas. Já não se fala em Igreja na América, mas da América (Cap.7-9). É desta Igreja Americana que o Autor irá elucidar quatro modelos de bispos, a partir de suas faltas [2]:

Esse homem (o bispo ambicioso) se juntará , nas profundezas do inferno, aos seus colegas bispos que não possuem as virtudes sobrenaturais da Fé, da Esperança e da Caridade. Se ao bispo traidor falta predominantemente a fé, ao covarde a esperança e ao bispo ignorante principalmente a caridade, ao bispo ambicioso faltam as três virtudes no mesmo grau.
 

Essa hierarquia feminizada (Cap.10) cria uma geração de católicos confusos, levando com ela as almas à condenação eterna, é preciso que o grão de trigo morra, para que dê fruto, esta é a missão dos católicos fieis (Cap.11), fazer oposição com uma vida santa e doutrina reta à “Igreja dos Legais” (Cap. 12) que renega a identidade católica, como uma prostituta que submete a sua dignidade para oferecer-se a ser violada pelo mundo. A vontade de nunca ofender, emitir juízos ou excomungar faz dessa “Igreja dos bonzinhos” condenada ao inferno. A mentira de uma “esperança razoável na salvação” de todos (Cap.13), o famoso discurso de canonização nas missas de réquiem de nosso cotidiano, demonstra a fé e moralidade abandonada pelos católicos (Cap.14) e suas consequências nefandas para a Igreja e a sociedade, não obstante, para com o destino eterno dessas almas.

Mas, não podemos nos enganar de que seja ingênua esta guerra contra a identidade católica (Cap.15), muitos sabem o que estão fazendo e o fazem porque, como servos do diabo, querem apresentar a mentira como verdade e verdade como erro, sua arma é a dubiedade e, infelizmente, tem os documentos recentes para lhe ajudarem nisto. É assim que se propõe uma Nova Evangelização (Cap.16) com um conteúdo “antitético ao coração da fé católica”, contra a proposta inicial do Papa São João Paulo II de reevangelização.

Nos últimos capítulos de sua obra, Michael Voris, irá apresentar a única solução católica para esses males: a santidade de vida para todos os fieis. O mal começa a reinar nos corações quando a vida interior é minada e substituída por outra coisa, sem vida interior cultivada não há santidade e sem santidade não há renovação da Igreja! A verdadeira caridade - ao contrário deste “ser legal” que não é católico, mas satânico e que leva ao inferno – é o meio pelo qual somos salvos e servimos à salvação de todos (Cap.17-19). Lembra o Autor algo fundamental [3]:

Assim como nenhuma heresia pode realmente começar com os leigos, então, em ultima analise, nenhuma solução pode ser sustentada pelos leigos. Nosso Senhor nomeou pastores para o rebanho, e é dever deles proteger as ovelhas. Mas enquanto eles estão dormindo, as ovelhas podem sentir-se livres para fazer muito barulho para acordá-los (E que barulho faz uma vida santa!).
 

“Todo o mal no mundo se deve a católicos mornos”, esta contestação do Papa São Pio V, faz-nos estremecer. Porque nos afasta as desculpas que frequentemente damos: “sofremos uma crise sem precedentes”, “mas os pastores são maus”, “o outro não tem fé”, etc. Tudo bem, nada disso é falso, mas, você já parou para pensar se o fato de não sermos santos, de resistirmos à graça, de não nos entregarmos ao martírio (branco ou rubro), não é a causa do estado que chegamos? (Cap. 20-21). “O caminho para acabar com a crise na Igreja, para sustá-la e reverter seus efeitos diabólicos, para restabelecer a identidade católica autentica, é ser santo” (p.307). Neste caminho três coisas devemos saber de cor e a obra de M. Voris muito nos ajuda com isto [4]:

A graça é Deus dando a nós o que não merecemos. A misericórdia é Deus não nos dando o que merecemos. A justiça é Deus dando a nós o que merecemos. Reze, viva e aja de tal maneira que você possa receber e cooperar com a graça de Deus para obter Sua misericórdia. Sua justiça é algo terrível demais para enfrentar. Deus ama você.
 

por Frei Leandro Lima, O. P.

[1] VORIS, Michael. Militante: restaurando o catolicismo autêntico. Tradução: Guilherme Ferreira de Araújo e Verônica Resende. Rio de Janeiro: Editora CDB, 2019. p. 24.

[2] Ibidem, p.135. Nota e itálico nosso.

[3] Ibid., p.276, nota nossa

[4] Ibid., p. 314.

 

O livro está disponível para compra aqui.

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