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Os católicos na Guerra dos Cristeros

Exemplo de Ação Laical em um momento emergencial de luta do Estado contra a Igreja

· Escritura e História

Um dos marcantes eventos da história católica em que leigos deram exemplo de virtudes heroicas, de martírio, de defesa da fé e de luta contra a injustiça e tirania foi a Guerra dos Cristeros (1926-1929) – evento que se deu no México e que até hoje, inclusive no próprio país, contudo, é um evento pouco conhecido. Diga-se ainda que tal acontecimento gerou um forte sentimento entre os religiosos e leigos de defesa da fé frente a um governo revolucionário que queria submeter a Igreja ao Estado.

No que concerne às ações tenebrosas perpetradas nesse momento histórico, lista-se, dentre outras, a perseguição de católicos, profanação de templos e fuzilamento dos fiéis resistentes, durante o governo de Plutarco Calles. Este, inclusive, chegou a protagonizar uma tentativa de cisma, fundando a “Igreja Católica Mexicana” – tudo para se opor e perseguir a fiel Igreja mexicana.

Passemos, então, a analisar brevemente a história do período, remontando-nos aos principais eventos que desembocaram nesse cenário aterrorizante para a fé católica.

Primeiramente, diga-se que a Revolução Mexicana, iniciada em 1910, deu-se em um contexto de oposição ao governo do general Porfírio Díaz, o qual havia se instalado com um golpe de Estado, tendo governado de 1876 a 1910. As principais medidas desse governo foram o confisco das terras indígenas, a ordem positivista rumo ao progresso capitalista internacional e um exercício ditatorial do poder, sustentado pelos intelectuais liberais e os grandes proprietários – o que gerou uma forte insatisfação por certos grupos da população.

Por outro lado, o general Porfírio permitiu uma trégua com a Igreja Católica, perseguida desde a expulsão dos Jesuítas em 1767, o que possibilitou um afloramento católico, reconstrução de seminários e Igrejas e a formação de um povo católico piedoso. Concomitante a esse momento, houve a renovação do laicato mexicano sob a inspiração dos princípios da Rerum Novarum, voltando, desse modo, a atuar na política, na imprensa e nos Círculos Operários Católicos.

Mas Díaz, aliado à elite do poder, não era capaz de estancar a sangria de um governo maquiado de democracia e que relegava os trabalhadores, camponeses e operários à uma situação de imensa miséria. Em meio a esse contexto, no norte do país se organizou o villismo e o exército da Divisão do Norte contra o governo, aliando os mineradores inconformados com sua realidade de trabalho. Ao sul, liderado por Emiliano Zapata, congregaram-se camponeses e indígenas na luta pela questão das terras.

Assim, em 1910, general Díaz, desmoralizado no governo e sem qualquer apoio, cede aos movimentos e abandona o governo, o que leva à aclamação de Madero, em 1911, como novo presidente do México, apoiado pelos zapatistas, villistas e pelos leigos do Partido Católico Nacional. Ademais, o laicato católico, presente na eleição daquele ano, garantiu mais de cem cadeiras na Câmara dos Deputados, esperançosos na democracia.

No entanto, diversos grupos, insatisfeitos com as mudanças no ritmo democrático do governo, iniciam a verdadeira revolução. Os grupos defensores do general Díaz, desejosos de retomar seus privilégios, os camponeses dirigidos pelos movimentos zapatista e villista e generais ávidos de tomar o poder, passam a disputar entre si o governo. Instaura-se, dessa forma, o verdadeiro caos e anarquia no México. E em 1913, como era de se esperar, é assassinado o presidente Francisco Madero.

Em cenário de confusão, o general Victoriano Huerta ocupa o poder em 1913, mas é deposto em 1915 pelo general Venustiano Carranza, fundador do Exército Constitucionalista, e apoiado por Zapata e Villa. Cabe destacar que seu exército, na marcha até a conquista do poder, rumo à Cidade do México, saqueou e profanou todas as Igrejas pelo caminho. Ato contínuo, em 1916 seu poder foi firmado e já aí o primeiro ataque direto sofrido pelos católicos: Igrejas profanadas, seminários fechados e sacerdotes expulsos do país.

Para coroar a dominação do Exército Constitucionalista, vários generais, dentre eles Elias Calles, foram nomeados governadores dos estados. E, em 1917, a Constituição aprovou o tom anticlerical que tomava o governo. No artigo 3, proibia-se a educação religiosa, tornando-a exclusivamente laica; no artigo 5, proibia-se os votos religiosos e as ordens monásticas; por sua vez, o artigo 24 proibiu o culto público (fora do templo) sem autorização do governo; o 27, tornava propriedade do Estado todos os templos; por fim, o artigo 130, de clara inspiração Jacobina, pontuava um cadastramento dos sacerdotes mexicanos para exercício de seu ofício, obrigando-os a sujeição à lei, e não ao Vaticano.

Os católicos, impotentes diante dos revolucionários, não puderam senão protestar contra os abusos, sendo que muitos bispos foram expulsos do país por se posicionarem frente aos eventos recentes. Mas a aplicação dessas leis se dava de modo arbitrário entre os governadores, que a seu bel-prazer optavam por uma aplicação mais severa ou comedida, o que fez com que alguns locais enfrentassem mais repressão ao passo que outros uma suposta trégua. Essa dinâmica se deu de 1917 a 1926, quando eclode a situação dos cristeros., não obstante o general Obregón ter subido ao poder, em 1919, e proposto apaziguar a situação da Igreja, vez que os generais de cada região continuavam a perseguição.

Sobre a preparação prévia do ambiente para a eclosão da guerra em 1926, cabe citar que, entre 1920 e 1921, dois grupos de leigos católicos formaram-se em defesa da fé: “União dos Católicos Mexicanos”, também conhecida como “La U” e a “Associação Católica da juventude Mexicana”. O primeiro se preparava para levar a fé às catacumbas caso a perseguição aumentasse, ao passo que o segundo atuava em defesa dos templos, seminários e outras edifícios da Igreja contra as profanações e invasões do governo. Além disso, alguns enfrentamentos armados já ocorriam nesse momento e viriam posteriormente a se agravar com a guerra em 1926, como foi o de Morélia, em que jovens da ACJM e operários católicos protestavam contra o fechamento de um colégio católico, tendo o exército aberto fogo e assassinado 10 manifestantes.

Voltemos ao desenrolar histórico; em 1924, ano em que se que se dá a eleição Plutarco Elias Calles, um dos generais que já compunha o governo do México, inicia-se a guerra, abraçada por ele. Já em 1925, ele tentava promover um cisma na Igreja Católica, fundando a Igreja Católica Mexicana, apoiado pelos sacerdotes que aderiram ao seu projeto e ao cadastramento religioso que pontuava a constituição. Tinham até o antipapa mexicano Joaquín Perez.

Em junho de 1926, o presidente prepara um projeto para regulamentar os artigos da Constituição que feriam a Igreja, e propôs um endurecimento deles, medida que ganharia o nome de “Lei Calles”. Com essa decisão, o Estado podia agora decretar o número de sacerdotes por Estado, todos cadastrados, além de poder aplicar sanções e prisões a não laicidade do ensino, à imprensa confessional, a quem fizesse votos, aos cultos fora dos templos autorizados, aos sacerdotes que falassem em matéria de política, usassem batina em locais públicos e exercessem a profissão sem cadastramento. Em suma, não se respeitava mais a liberdade da Igreja, sob a ânsia de querer moldá-la ao bel-prazer do governo.

Traçadas essas importantes considerações, diga-se desde já que é impossível abarcar todos os pormenores da guerra neste breve artigo. Por isso, serão destacados os atos que constituem uma resistência pacífica até a subsequente luta armada e a formação dos chamados cristeros, que englobavam La U, a ACJM e os grupos recém-formados, como a Unidade Popular e a Liga Nacional de Defesa da Liberdade Religiosa, seus sucessos e também os martírios heroicos de um povo que não se calou frente à injustiça. Aliás, os combatentes receberam o nome de Cristeros porque entoavam o grito de guerra dizendo: “Viva Cristo Rei!”.

Família de Cristeros

Dentro desse contexto, pode-se considerar como o primeiro ato para afrontar o governo e exigir uma reforma dos artigos anticlericais o boicote proposto pela Liga, no dia 07 de julho, aprovado pelos bispos, exortando os católicos a comprarem somente o essencial à sobrevivência. Boicote esse que custou, em Guadalajara, uma queda de 25% na maior parte dos produtos e também a retirada de 22.000 crianças das 25.000 das escolas do governo. Não obstante, o governo mostrava-se intransigente.

Outro protesto pacífico digno de nota foi tomado pelos bispos, que submeteram ao Vaticano uma carta contando os planos de suspender o culto como protesto pacífico no México e dar ampla visibilidade às arbitrariedades do governo. Enviaram ao Vaticano, no dia 22, e no dia 25 publicaram a Carta Pastoral Coletiva informando a triste medida que tomavam e que se iniciaria no dia 01 do mês seguinte. No dia 31, por isso, padres atendiam confissões e celebravam Missas, Batismos e Matrimônios, em meio a tristeza dos fiéis.

Lamentavelmente, nada mudava os rumos que o governo havia tomado no combate. Desse modo, os leigos, em sua maioria, mas também muitos sacerdotes, deram conta de que a resistência pacífica já não era mais uma opção e pegaram em armas. Nos primórdios da luta, eram uma unidade sem treinamento, desorganizada e com poucos armamentos, mas em dois anos se arregimentou como uma poderosa milícia, que causou inúmeras baixas no exército. Imbuídos do ânimo de oferecer sacrifícios e expiar suas culpas, os cristeros combateram com valentia.

Fuzilamento do idoso sacerdote Padre Francisco Vera

O combate se concentrou na região centro-oeste do país, de modo que o norte, devido a acordos locais das autoridades políticas e eclesiais, não conheceram o combate. Desta feita, a guerra teve grandes sucessos nos estados de Morelos, Guerrero, Oaxaca, San Luís Potosí, Zacatecas, Colima, Coahuila, Michoacán, Guanajuato, Durango, Nayarit, Distrito Federal e Puebla. A primeira etapa do combate se deu de janeiro de 1927 a julho do mesmo ano, período quando diversas revoltas de grupos populares armados surpreendiam contingentes maiores do exército. A segunda etapa foi de julho de 1927 a julho de 1928, quando o general Enrique Gorostieta Velarde era nomeado chefe dos exércitos cristeros e formulava todo um esquema de atuação, disciplina, táticas e áreas de influência – causando ainda mais baixas no exército. A terceira etapa da guerra vai de setembro de 1928 a janeiro de 1929, quando facções dos militares brigavam pelo poder e desorganizavam os efetivos na repressão dos cristeros, o que permitiu a eles mais avanços e uma retomada de zonas onde o combate havia esmorecido. A guerra se “conclui”[1] em 3 de março de 1929 com os acordos de Portes Gil e a hierarquia eclesiástica.

É digno de nota a surpreendente proporção de baixas nas batalhas: no combate de El Fresal, morreram 189 soldados do governo para cinco cristeros; em Colima, foram 375 soldados para quatro, em Ahijillo, 125 soldados sem perder um homem e, em Coalcomán, dois cristeros para 133 inimigos. Além disso, cabe citar a batalha liderada pelo general padre Reyes Vega em Tepatitlán, morto em combate, que infligiu derrota ao exército do general Cedillo, de contingente numeroso, com 12.000 homens

Um grande número de mártires fora beatificado, como é o recente caso da canonização de São José Sanchez Del Rio, um jovem de 15 anos que antes preferiu dar a vida por Cristo a negá-lO, bem como o de grandes líderes, como Beato Anacleto Gonzalez Flores jornalista, Beato Míguel Pro, sacerdote fuzilado enquanto gritava "Viva Cristo Rei!". Isso que revela que muitas foram as baixas dos cristeros nesse combate. Ademais, pode-se enumerar, como principais problemas enfrentados pelos católicos combatentes, além da questão relativa à dificuldade de obter armamento militar: o silêncio da mídia a nível global e local quanto aos abusos cometidos pelos generais; a postura do clero, receoso de dar aval à resistência armada; e também a postura de Roma, que não interviu eficazmente com a diplomacia na questão.[2]

São José Sanchez Del Rio entre as legiões dos cristeros

Diga-se ainda que os Estados Unidos, não mencionados anteriormente, mas que estiveram presentes na guerra ao lado do governo, com financiamento e envio de armas, também operou a reconciliação do governo com os católicos. O embaixador Morrow, enviado dos EUA para apaziguar o conflito, reuniu-se em Washington, em 1929, com o Monsenhor Leopoldo Ruiz y Flores, arcebispo de Morélia, e monsenhor Pascual Díaz para retomar o contato com os funcionários do governo.

Fuzilamento do Beato Miguel Augustín Pro sacerdote fuzilado ao grito de “Viva Cristo Rei”​

Contudo, apenas com a chegada ao poder do novo presidente, Portes Gil, é que a negociação avançou, em reunião ocorrida no dia 12, com a presença do embaixador Morrow. No dia 20, o Papa lhes concedeu autoridade de negociação, exigindo: anistia completa para o clero e fieis; restituição dos templos e seminários; e liberdade nas relações entre Roma e o episcopado. Acertado o acordo, comunicou-se a decisão na imprensa mexicana no dia 22, paralelamente à retomada do culto. Um exército de aproximadamente 50.000 combatentes, que não foram derrotados, mas sim vendidos nesse arranjo com o governo, abaixaram suas armas e as entregaram, recebendo salvo-condutos em troca; ademais, eles também libertaram os prisioneiros, sendo que muitos sacerdotes retornaram ao México.

Foram mortos, ao todo, 14 generais militares, 2000 oficiais e 55.000 soldados auxiliares. Entre os cristeros, estimam-se 30.000 mortes, inclusas a dos civis que foram atingidos entre as ofensivas do exército. Os leigos verdadeiramente protagonizaram a resistência junto de centenas de sacerdotes e religiosos, os quais muitos foram martirizados e até hoje são figuras de veneração pela coragem e pelo sacrifício em defesa da fé.

Viva Cristo Rei!

Referência Bibliográfica: MENDONZA DELGADO, Enrique. A Guerra dos Cristeros. Edições Cristo Rei 10/02/2013

Diego de Farias

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