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Os 10 Mandamentos e a Doutrina Social da Igreja

As origens da DSI nos 10 Mandamentos da Lei de Deus

· DSI histórico

Anteriormente em nossas reflexões, tivemos a oportunidade de refletir sobre a relação entre os princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) e os textos das Sagradas Escrituras (clique aqui para acessar o artigo). Em resumo, foi mostrado que sempre será possível encontrar amparo e equivalência de cada princípio da DSI à luz do conjunto dos ensinamentos deixados por Jesus Cristo e registrados nas Sagradas Escrituras. Também foi apontado que, mesmo antes de Cristo, pode-se perceber a base primitiva da Doutrina Social da Igreja contida nos dez mandamentos. Neste artigo, assim, gostaríamos de falar uma pouco mais sobre essa base. 


De fato essa relação não só é verdadeira como também é de extrema importância para uma boa vivência dos 10 mandamentos, das verdades evangélicas e dos princípios da DSI. Para entender melhor essa relação, talvez seja importante fazer uma análise que remonta ao relato do início da criação do homem e ir avançando gradual e conscientemente até o momento presente. Mas, nesse processo, pode surgir uma pergunta: por que retroceder tanto para se entender a relação entre a DSI e os dez mandamentos?  A resposta pode ser dividida em três partes: primeiro entender a condição humana; depois, o porquê dos 10 mandamentos; e, por fim, perceber a necessidade real de uma doutrina social.

A condição do homem

Ao analisarmos o mundo atual, com toda sua modernidade e avanços tecnológicos juntamente com a diversidade das culturas e dos pensamentos, podemos identificar claramente um esforço intelectual que tenta ditar como as pessoas devem “ser”, o que devem “pensar”, como devem “agir”, etc. E todo esse esforço justifica-se pela alegação de que se busca construir uma sociedade perfeita e moderna. Esse esforço intelectual sempre apareceu em todos os lugares e épocas durante a história do homem, mas foi na modernidade que esse esforço tomou formas mais claras e foi identificado como ideologias. O grande problema desse projeto de sociedade baseado nestas chamadas ideologias é desconsiderar uma realidade espiritual e histórica que marcou profundamente a natureza do homem: o pecado original!

A falta de clareza dessa condição humana pós lapsária – pós-queda – e a tentativa de se ignorar suas consequências tornam nulos quaisquer esforços do homem em se organizar socialmente e conduz cada indivíduo a sua própria ruína. Isso pode ser comprovado ao olharmos para trás e percebermos as inúmeras vezes em que o homem tentou trilhar seu próprio caminho sem observar as devidas instruções divinas e terminou sempre encontrando o caos por praticar a violência, a injustiça e a imoralidade. Vejamos agora um breve resumo dessa trajetória humana.

Ademais, recorrendo às narrativas bíblicas do livro do Gênesis com um olhar teológico, percebemos que o pecado original foi introduzido na história humana por uma transgressão a uma lei que Deus estabeleceu. Ao desobedecer a Deus ignorando sua proibição, nossos primeiros pais – Adão e Eva – sofreram instantaneamente duas das consequências desse ato transgressor, a vergonha e a perda da inocência (Gn 3, 7). Após a expulsão de Adão e Eva do paraíso – outra consequência da desobediência –, eles tiveram seus primeiros dois filhos, Caim e Abel, sendo que o fim deste último foi um assassinato motivado pela inveja de seu irmão (Gn 4,8).

O porquê dos 10 Mandamentos

Avançando na história, e depois de algumas gerações, quando uma multidão já habitava a terra, Deus olhou para a humanidade e percebeu que as coisas haviam tomado um rumo em direção à maldade. Apenas um homem encontrou graça ao olhos de Deus e ele chamava-se Noé.

O Senhor viu que a maldade dos homens era grande na terra, e que todos os pensamentos de seu coração estavam continuamente voltados para o mal. (Gn 6, 5).

Bem sabemos que é neste momento que acontece o grande dilúvio – consequência da maldade do homem – e a humanidade tem na figura de Noé e sua família um novo começo.

Neste ponto da nossa análise, é muito importante que percebamos o fato de que existe uma tendência do homem para o mal e que essa mesma tendência marcou os primórdios da criação, estendendo-se de geração em geração. Assim, conforme o tempo passava, mesmo com os sinais que Deus enviava, os homens sempre se voltavam para pensamentos não virtuosos. Com efeito, tomados pela vanglória, iniciaram a construção da torre de Babel, onde foram confundidos e dispersados por Deus (Gn 11, 4). Também as cidades de Sodoma e Gomorra eram tão pecaminosas que não encontravam-se nem dez justos nelas e foram condenadas à destruição total (Gn 18, 20).

Mais adiante na narrativa bíblica vemos o episódio dos irmãos de José – filho de Jacó – que por inveja venderam-no (Gn 37, 4). E muito outros fatos ocorridos nos mostram que, apesar da presença de Deus e de seus escolhidos para mostrar o bom exemplo, ainda sim muitos se deixavam guiar por atitudes baseadas na maldade. O livro do Êxodo é um bom exemplo dessa realidade: Moisés foi um desses escolhidos por Deus para mostrar às pessoas o caminho do bem, ordenado a Deus.

Com efeito, foi nesse contexto tão conturbado que Deus, ao perceber as consequências do pecado original na humanidade juntamente com a maturidade do contexto histórico, estabeleceu sistematicamente seus inúmeros preceitos como referência absoluta para uma ordenação espiritual e social dos homens, que estavam novamente se perdendo no mal. Nesse sentido, podemos falar que houve uma ordenação espiritual, pois a humanidade atingira tal ponto de idolatria que comprometia a fidelidade verdadeira para aceitar e obedecer a Deus. E é também possível falar de ordenação social, pois já havia uma estrutura avançada de relações entre as pessoas no que diz respeito ao conceito de famílias, de identidade territorial, de agrupamentos profissionais, de relação comercial de venda, troca e serviços e relação de senhor e servo.

Dessa forma, fica claro que os mandamentos de Deus foram instituídos por Ele mesmo para que o povo escolhido e suas futuras gerações tivessem uma referência de conduta espiritual e social baseada na fidelidade a Deus e em sua justiça para uns com os outros. Assim, no ápice da revelação de Deus, quando Jesus Cristo vem ao encontro do homem marcado pelo pecado original, Ele oferece a verdadeira e única salvação por seus méritos e, ao mesmo tempo, eleva e aperfeiçoa os antigos preceitos entregues a Moisés – concluindo a lenta mas tão necessária catequese que tem por fim a salvação dos homens da condenação eterna.

A necessidade social dos Mandamentos

O Magistério da Igreja Católica, guiado pela Sagrada Tradição, elabora e interpreta de modo seguro toda a extensão espiritual dos dez mandamentos à luz dos ensinamentos evangélicos. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, §2067, podemos encontrar o seguinte:

Os dez mandamentos enunciam as exigências do amor de Deus e do próximo. Os três primeiros se referem mais ao amor de Deus, e os outros sete ao amor do próximo

São Mandamentos de Amor a Deus:

1- Amar a Deus sobre todas as coisas;

2- Não tomar seu santo nome em vão;

3- Guardar os domingos e dias santos de preceito;

E são Mandamentos de Amor ao próximo:

4- Honrar pai e mãe;

5- Não matar;
6- Não pecar contra a castidade;
7- Não furtar;
8- Não levantar falso testemunho;
9- Não desejar a mulher do próximo;
10- Não cobiçar as coisas alheias.

Cabe refletir que quem não possui competência suficiente para cumprir os três primeiros mandamentos – conduta espiritual –, jamais compreenderá e cumprirá com perfeição os outros sete – conduta social. Por essa razão, eles são apresentados por ordem de gravidade.

O amor ao próximo a que se referem os mandamentos está ligado intimamente a uma ordenação social, que também é objeto de interesse para a Doutrina Social da Igreja. Seria impossível viver em uma sociedade que não respeitasse seus superiores e autoridades (4º mandamento), que não valorizasse a vida humana, deixando impune atitudes como o aborto, crimes e atentados (5º mandamento), que tornasse licito atos de caráter imoral como o sexo livre, a nudez e pornografia e a prostituição (6º e 9º mandamentos), que não houvesse punição para os indivíduos que roubam, furtam e realizam fraudes e corrupções nas esferas políticas e civis (7º mandamento) e, finalmente, também seria impossível viver numa sociedade em que a mentira e enganação fossem algo comum, sem a intervenção da verdadeira justiça (8º mandamento).

Por fim, ressalta-se que, uma vez que a Doutrina Social da Igreja é um ramo da Teologia Moral, disciplina que estuda e instrui o comportamento humano social segundo a fé, esses desdobramentos dos dez mandamentos são a base para os princípios do Bem Comum, da Subsidiariedade, da Destinação Universal dos Bens, da Participação e da Solidariedade – essenciais para a DSI. Desse modo, a Igreja Católica, atentando-se a essas novas ideologias e propostas utópicas que convidam o homem, ferido pelo pecado, a trilhar caminhos tortuosos, e ciente do impacto social do Evangelho, buscou elaborar e sistematizar toda a base de sua doutrina social para que mais uma vez a voz de Deus fosse ouvida e seus mandamentos obedecidos – orientando, assim, toda a sociedade moderna segundo o Caminho da Verdade e da Vida, que é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.

Daniel Pinheiro

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