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O que é a verdadeira solidariedade cristã?

Lição de Dom Rafael Cifuentes sobre o que é a solidariedade

· Introdução à DSI,Resenha de Livro

Solidariedade é uma palavra tão utilizada em nossos dias que se tornou quase um jargão. A apropriação linguística operada por ideologias esquerdistas manipulou o sentido dessa palavra de tal maneira que, hoje, alguns têm até receio de utilizá-la e acabar por gerar incompreensão. Tão vasto é seu emprego, até mesmo o anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon fez uso da expressão: "Suprimamos as tarifas, e assim será declarada a aliança dos povos, reconhecida a sua solidariedade e proclamada a sua igualdade."

Nesse cenário de diversidade semântica, é imperiosa a pergunta: afinal, a solidariedade de que tanto falam os revolucionários e os progressistas é a mesma solidariedade cristã, princípio da Doutrina Social da Igreja? Certamente, não.

A "solidariedade" tornou-se hoje um subterfúgio, afinal, se o Estado é sempre o responsável pelos problemas sociais, suprime-se o dever de cada pessoa com relação ao bem comum, o que também abre espaço para um paternalismo estatal que nada tem de solidário, mas sim de demagogo. Da mesma maneira, esquivam-se os liberais ao justificarem inúmeras injustiças sob o estandarte da liberdade individual, fazendo da solidariedade apenas uma consequência natural do livre mercado, e não um dever a ser exercido. Como escreveu Paulo VI na encíclica Octogesima adveniens, "o apelo à utopia não passa muitas vezes de pretexto cômodo para quem quer esquivar as tarefas concretas e refugiar-se num mundo imaginário."

O sentido original de solidariedade, no entanto, está fundado nas Sagradas Escrituras. Sua aplicação transformou o mundo ocidental desde a Antiguidade com o amor pregado e vivido — eis a distinção fundamental — pelos primeiros cristãos. Sua vivência é fundamental para o Reinado Social de Cristo, para a Civilização do Amor, nas palavras de São João Paulo II. A solidariedade é, na verdade, um hábito fundamental para um católico maduro. Deixamos, enfim, uma descrição desse princípio da DSI, abaixo, em um contexto mais ascético tirado do livro A Maturidade, de Dom Rafael Llano Cifuentes:

 

O homem que chegou à maturidade é alguém que reconhece o seu lugar no mundo e na sociedade. Sabe que o organismo social forma uma unidade e que cada parte é responsável pelo todo. Participa na construção do bem comum sem inibições nem complexos, independentemente da categoria da sua contribuição pessoal. O que lhe interessa é colaborar em benefício de todos, sem se importar com a maior ou menor relevância do posto que ocupa. A isso chama-se solidariedade, a qualidade de quem sabe colocar o bem comum acima do seu bem particular.

 

A solidariedade constitui uma qualidade extremamente importante no nosso clima cultural, permeado de egoísmo individualista. Alguns pensam que é facultativo, que se situa na linha do voluntariado, quando na realidade é uma obrigação de altíssima importância, não exigida pela lei, mas pela consciência pessoal.

 

Uma pessoa amadurecida já incorporou à sua vida, como tantas outras coisas, o hábito da solidariedade, exercitado em mil pequenas ajudas prestadas na vida ordinária: cuidar dos irmãos menores; prestar um serviço em casa; fazer um favor a um amigo ou colega; assistir um doente ou visitar uma pessoa que precise de apoio; oferecer uma ajuda financeira em momentos de apuro; substituir um colega de trabalho em alguma eventualidade extraordinária... e tantas coisas mais.

 

Trata-se, enfim, de cultivar, na expressão reiterada de João Paulo II na Solicitudo rei socialis, uma verdadeira educação para a solidariedade. Não pode ser apenas uma atitude demagógica — tão em moda nos tempos que correm —, mas uma realidade viva, que se traduza em gestos concretos.

 

Há pouco, um engenheiro brasileiro que mora há muitos anos na Polônia contou-me algo que chamou a atenção. Quando o comunismo mandou derrubar algumas igrejas católicas, os fiéis paroquianos levaram as peças e tijolos do templo para as suas casas. Depois de reinstaurado o regime de liberdade religiosa, cada fiel trouxe de casa o que tinha guardado, e em pouco tempo e com muita facilidade reconstruíram-se as igrejas destruídas. Extraordinário exemplo de solidariedade.

 

Cada um de nós tem de construir o edifício do bem comum com a sua contribuição, grande ou pequena, tal como se constrói uma casa tijolo a tijolo: a argamassa que une cada um desses tijolos é o amor solidário.

 

Sempre me impressionou a solidariedade que se vive dentro das favelas. Parece que o sofrimento e a carência mais absoluta vinculam as pessoas entre si. Sempre me encantou também aquela imagem que São Josemaria Escrivá utilizou tantas vezes: "Somos elos da mesma corrente". Ao considerá-la, sempre pensei: "Não posso quebrar, porque, se eu falhar, a corrente inteira cairá, partida." Imagem que evoca esses alpinistas que se sustentam mutuamente na perigosa ascensão de um cume inacessível: "A minha segurança é a segurança dos outros. Se eu não aguentar firme, os outros despencarão."

 

Neste nosso mundo globalizado, devemos sentir a premente responsabilidade não apenas pelos que estão ao nosso lado, mas também pelos que passam fome na Somália, pelos aidéticos em Uganda, pelos que têm as suas casas destruídas pelos bombardeios na Palestina, pelos que vivem acorrentados nas cadeias da China (entre os quais há muitos católicos, perseguidos unicamente pelo crime de terem fé). Não posso ir até esses países para ajudar a mudar a situação dessas pessoas? Sem dúvida; mas não posso ao menos rezar por elas, como tem insistido tanto o Papa João Paulo II?

 

Hoje estão de moda os congressos, as manifestações pacifistas, os protestos multitudinários..., mas não está de moda o sacrifício solidário, vivido para solucionar as necessidades de pessoas concretas. Não de pessoas abstratas, não, mas de Fulano de Tal, com lepra; de Sicrana de Qual, com AIDS; de Beltrano, com nome e sobrenome, que mora na favela da Rocinha, da Lagartixa ou da Maré... É bem verdade que não podemos resolver todos os problemas dessas pessoas; mas podemos resolver efetivamente um pequeno problema concreto: "adotar" um aluno de uma escola técnica assistencial — pagar-lhe uma bolsa —, permitindo-lhe assim fazer um curso profissionalizante; ir com um mendigo determinado até a farmácia da esquina, para comprar-lhe o remédio de que precisa; pagar o almoço de um menino de rua... E conversar dez minutos com essas pessoas, para que ao menos sintam que alguém se interessa por elas.

 

"Não podemos fazer grandes coisas — costumava dizer Madre Teresa de Calcutá —, só podemos fazer coisas pequenas com um grande amor". E acrescentava: "São os pobres que me dão as vitaminas necessárias para fazer essas pequenas tarefas com grande amor."

A Maturidade é uma excelente obra e de grande auxílio para a vida interior. A cristalinidade com que o autor enxerga as raízes dos problemas característicos de nosso tempo, e como eles afetam a alma de cada homem, revela a grande prudência de Dom Rafael Cifuentes. Você pode comprar o livro da Editora Quadrante, que nos permitiu a publicação do trecho acima, aqui: http://www.quadrante.com.br/maturidade-a

Matheus Godoi

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