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O Papa e Lula

O que significa a bênção do Papa Francisco enviada ao Ex-presidente Lula?

· Temas

Faz parte da arrogância humana demonizar os inimigos e desconsiderá-los desprovidos de humanidade. E os cristãos, infelizmente, não estão imunes, principalmente quando se trata de inimigos declarados da fé.

A situação atual da Igreja e algumas declarações mal interpretadas do Papa Francisco durante seus cinco anos de pontificado levaram alguns católicos a se escandalizarem com a nota enviada por Sua Santidade ao presidiário Luiz Inácio Lula da Silva:

“A Luiz Inácio Lula da Silva com a minha bênção, pedindo-lhe para orar por mim, Francisco.”

Para acalmarmos nossas consciências e não nos fecharmos em nossa visão limitada de 2018, precisamos enfrentar o episódio à luz do Evangelho e da história da Igreja e do próprio papado.

Disse Jesus: 

“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5,44).

Nos primeiros anos de nossa Igreja os cristãos, que sofriam perseguição declarada e mortal dos imperadores romanos (o que não é, com a graça de Deus, o caso do ex-presidente Lula), rezavam constantemente pela saúde e pelo governo dos tiranos.

Quem se escandaliza com a nota do Papa Francisco se escandalizaria se, nos séculos II, III ou IV lesse as apologias escritas por Tertuliano, São Justino ou Santo Atanásio e dirigidas aos imperadores romanos. Apologias estas enérgicas e duras, mas extremamente magnânimas e cheias de respeito e caridade, não querendo condenar, mas converter.

Lula é, de fato, um inimigo da Igreja e da fé cristã. Mas não o era o imperador Henrique IV da Alemanha, excomungado e logo depois perdoado pelo papa São Gregório VII? Não era inimigo da Igreja o duque cismático Guilherme X da Aquitânia, exortado e tratado com benignidade por São Bernardo de Claraval a pedido do Papa Inocêncio II?

A história está repleta de ocasiões em que os papas, em nome da caridade cristã, foram magnânimos com monarcas ou governantes que tinham infringido mal à Igreja. Duas ocasiões do século XIX demonstram o quão vãos são os protestos de alguns católicos incapazes de ver na atitude de Francisco a mais elevada expressão do amor de Jesus.

Em 1878, quando o rei Vítor Emanuel II da Itália agonizava em seu leito de morte, excomungado por ter liderado os exércitos piemonteses na conquista de Roma, colocado fim aos Estados Pontifícios e tornado o papa “prisioneiro do Vaticano”, cheio de compaixão, o Bem-Aventurado Papa Pio IX enviou-o, através de São João Bosco, o capelão-mor da Basílica de São Pedro com uma última absolvição e assim o rei morreu reconciliado com a Igreja. Isso, contudo, não quis dizer que o papa reconhecesse seu governo e tampouco que aprovava sua vida e suas políticas (somente quarenta anos depois o papa se reconciliaria com o Estado Italiano) [1].

A segunda ocasião foi da parte do Papa Leão XIII que em 1884 e em 1892, sob os protestos dos monarquistas católicos franceses escandalizados, reconheceu formalmente a República Francesa e seu governo, por mais que essa fosse governada por anticatólicos declarados [2].

Atitude pastoral, o primeiro caso. Atitude política, o segundo.

Analisemos agora o presente caso.

O Papa Francisco enviar uma mensagem de bênção a um idoso de setenta e dois anos, condenado a doze anos de prisão (culpado, de fato) significa complacência para com seus crimes ou com seu projeto de poder?

Se assim entendermos, é provável que não compreendemos que antes de ser Chefe de Estado, o Papa é o chefe da Igreja Católica, Pontífice entre o Céu e a Terra, Portador das Chaves do Céu e dispensador da caridade que Aquele que representa ordenou aos que se dizem cristãos.

Rezemos sim pelo papa. Mas rezemos também pelo criminoso que cumpre pena em Curitiba, nos unindo às orações do Sumo Pontífice pela sua conversão, ainda que tardia. E rezemos ainda por nós mesmos, para que sejamos capazes de perdoar os inimigos e de termos uma visão de mundo um pouco mais cristã.

Referências bibliográficas

[1] Daniel-Rops, a "Igreja das Revoluções", tomo II, p. 117-118.

[2] Ibidem, p. 133-140.

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