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Mit Brennender Sorge (1937): a resposta da Igreja ao nazismo

A condenação da Igreja ao Nazismo

· Encíclicas Sociais

Mal o regime Nacional-Socialista de Adolf Hitler se instaurou na Alemanha, ficou claro aos católicos e ao Pontífice da época, Papa Pio XI, que sua filosofia era inconciliável com a fé cristã. Por isso, não tardou até que o papa publicasse uma encíclica em que condenasse solenemente o Nazismo: a Mit Brennender Sorge, de 1937.

Nazismo e Cristianismo

Somente ao pronunciar a palavra “nazismo”, já nos vem à mente o porquê de o papa ter feito uma condenação tão dura e grave como a da referida encíclica. Ora, os crimes contra a humanidade que o Nazismo cometeu são tão presentes no imaginário popular que a simples menção à figura de Hitler já remete a todos a ideia de “maldade”. E com razão, haja vista as atrocidades que Hitler e seu regime empreenderam só não superarem as de Stalin e dos comunistas na União Soviética.

Contudo, dentre as razões que motivaram o Papa a condenar solenemente o nazismo, está a impossibilidade completa de se conciliar a visão de mundo nacional-socialista com a visão de mundo cristã. E são em dois pontos muito característicos do Nazismo que as duas visões se chocam de forma mais evidente:

  1. Estatolatria: para Hitler (assim como para Mussolini, na Itália), cada homem existia apenas pelo Estado e para o Estado. O Estado era uma espécie de deus, fim e razão da existência de cada homem. Daí advinha o culto ao líder (personificação do Estado-deus) e o Totalitarismo Unipartidário.

  2. Racismo: na chamada “concepção ariana do mundo”, o indivíduo não existia em si, mas sim como produto da raça. As raças existentes na terra não são todas iguais, e a inferior está mais próxima da espécie animal mais desenvolvida do que da raça superior. De todas, a mais elevada é a raça ariana e, portanto, ela deveria dominar o mundo por força do seu direito de pré-excelência.

Para Pio XI e para a Igreja, a simples leitura dessas teses bastava para perceber como eram totalmente opostas à doutrina cristã: hostil à individualidade humana, o nazismo desembocava na própria destruição da pessoa humana. Além disso, com o seu desprezo pelas raças tidas como inferiores, o nazismo era a própria negação do grande preceito que fundamenta toda a religião cristã, a caridade. Assim, em lugar desta, o que se propunha a milhões de homens era o ódio.

A violência nazista contra a Igreja Católica

Os líderes nazistas, da sua parte, detestavam a Igreja Católica. Ela era vista como uma religião “judaizada e asiatizada”, e os nazistas acreditavam que “ou se é cristão ou se é alemão, não as duas coisas ao mesmo tempo.” São Bonifácio de Mogúncia (672-754) era denunciado como um criminoso contra a raça germânica, pois trouxera-lhe o Evangelho. Um dos cânticos da juventude hitlerista tinha entre as suas estrofes:

“O vento do outono varre a palha, o tempo da Cruz já passou. Que terá de comum com o Papa e os ratos de sacristia um filho de mãe alemã?”

Em meio a tantos exemplos de ódio contra o cristianismo, não demorou para que começasse uma verdadeira perseguição contra os católicos, perseguição essa que assumiu duas formas:

  1. Desconfessionalização”: Esse termo, usado pelo ministro do Interior nazista, Wilhelm Frick, designava a longa secularização levada a cabo pelos nazistas. Assim, escolas católicas foram encerradas ou transformadas em escolas estatais (15.000 ao todo); a Associação da Juventude Católica foi dissolvida; jornais católicos foram suprimidos ou transformados em jornais hitleristas; foi ainda promovido por todo o aparelho do Estado um movimento de promoção de uma nova espécie de religião, que combinava aspectos do paganismo germânico pré-cristão e as visões estatolátricas do nazismo.

  2. Violência: O presidente da Ação Católica, Erich Klausener, foi fuzilado; assim como Adalbert Probst, presidente da Associação Desportista dos Católicos Alemães, e Friedrich Beck, líder universitário católico de Munique. Fritz Gerlich, diretor do maior jornal católico da Alemanha, foi executado na prisão. Mais de quinhentos padres e religiosos foram presos, sendo que vários deles morreram na prisão. Os edifícios da Igreja foram atacados e os palácios episcopais pilhados.

Ademais, essa violenta onda anti-cristã começou no mesmo momento em que se editava a Lei do Eugenismo, que promovia a esterilização dos doentes físicos e mentais, e no mesmo período em que a perseguição aos judeus ficava mais agressiva.

A resposta dos católicos e de Pio XI a Hitler

Em resposta a tantos ataques, os católicos alemães iniciaram uma luta contra a descristianização e contra os crimes do nazismo. Bispos protestaram contra as violências dirigidas a Igreja, e foram muitos os padres que denunciaram do púlpito o racismo, lembrando aos seus fiéis que Cristo era judeu e que a Bíblia era um livro judaico. Tudo isso, contudo, só levou a mais perseguição e mais repressão por parte dos nazistas.

Foi quando Pio XI, o corajoso Papa Pio XI, entrou no páreo. Ele aproveitou todas as ocasiões para protestar e denunciar: “Querem descristianizar a Alemanha e fazê-la regressar ao paganismo bárbaro!”, exclamava. E ao inaugurar, na primavera de 1936, a exposição mundial da Imprensa Católica, o papa foi mais longe: equiparou o nazismo ao bolchevismo.

Como relata o historiador Daniel-Rops, essa atitude causou rebuliço e impacto, pois no momento em que o “mundo se extasiava” com os êxitos de Hitler e nenhum governo, em parte alguma, ousava lhe desferir uma palavra de reprovação, era o “velho desarmado do Vaticano” que resistia. Foi, portanto, a resistência católica a primeira contra o nazismo.

Mas Pio XI foi ainda mais longe: no domingo de Ramos, 14 de março de 1937, publicou a Mit brennender Sorge. Esse documento pontifício, longo e minucioso, enumera todos os erros doutrinários do nacional-socialismo: estatismo, racismo, nietzcheanismo, paganismo. E termina com um resumo magistral da doutrina da Igreja em face de todas as opressões coletivas: “O homem, enquanto pessoa, possui direitos que recebe unicamente de Deus e que devem permanecer inalienáveis”.

O corajoso Papa Pio XI, que denunciou o Nazismo

 enquanto o mundo inteiro se calava

Quando Pio XI morreu, a imprensa nazista insultou sua figura até fartar-se. Nem por isso, conclui Rops, “o corajoso papa deixou de ter aos olhos da História o mérito de haver recordado, contra a heresia racista, que ‘a dignidade humana consiste em que todos os homens constituem uma só família: o gênero humano.’”

A fim de facilitar a compreensão desse documento, elaboramos um infográfico com os principais pontos expostos na encíclica, os problemas, as falsas soluções e as soluções reais dadas pelo Santo Padre com base nos princípios expostos.

Referências

Daniel Rops - A Igreja das Revoluções, volume I.

Papa Pio XI, Mit Brennender Sorge, 1937. Link para a tradução da encíclica em língua portuguesa: https://www.institutojacksondefigueiredo.org/2018/03/carta-enciclica-mit-brennender-sorge.html

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