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Marxismo e Doutrina Social da Igreja

Como são incompatíveis os princípios da DSI com as ideias de Karl Marx

· Temas

No último artigo em que tratamos do marxismo, demonstramos sua incompatibilidade com o cristianismo, de maneira geral. Neste texto, agora tratando o tema de forma mais pormenorizada, daremos mais algumas pinceladas nesse polêmico assunto, dessa vez apontando de maneira específica alguns pontos importantes em que se verifica tal oposição, particularmente no que concerne à Doutrina Social da Igreja Católica (DSI). Sendo assim, nos perguntamos: quais são, exatamente, os princípios e características da DSI que não podem conviver com o marxismo? O que há de tão destoante entre eles?

Princípio do Bem-comum

Segundo esse princípio, se todos os homens são amados e chamados à felicidade divina (como ensina a fé cristã), a organização empreendida por estes mesmos homens deve tender ao bem-comum, atendendo a todos. Assim, por bem-comum se entende as atitudes e opções que, tomadas num dado caso concreto, privilegiam e protegem a dignidade de todas as pessoas, sem distinção. Ele veda o partidarismo e a política de compadrio, empreendidas com o único propósito de favorecer tal ou qual grupo específico.

Por outro lado, o marxismo, como é possível constatar nos escritos do próprio Karl Marx, é essencialmente grupal e nega que se possa existir o intercâmbio entre as pessoas; para ele, as contradições opressivas existentes no sistema capitalista, das quais surge um hiato intransponível entre ricos e proletários, ocasionam também concepções de mundo necessariamente diferentes entre as classes, incluindo ideias, religiões, interesses e tudo o mais.

Tal “divergência” só seria superada na consumação da luta de classes, ou seja, na implantação do comunismo. Até lá, estaríamos em insanáveis tensões inerentes ao próprio sistema de produção capitalista, decorrentes do seu modo basilar de divisão da produção, qual seja, capitalistas (donos de terra) em um extremo, proletários (trabalhadores subjugados), em outro. Diz Marx:

“Os homens, ao estabelecerem as relações sociais vinculadas ao desenvolvimento de sua produção material, criam também os princípios, as ideias e as categorias conformes às suas relações sociais. Portanto, essas ideias, essas categorias, são tão pouco eternas quanto as relações às quais servem de expressão”.

O marxismo, por particularizar os interesses e ideias em irremediáveis divisões entre as classes, torna impossível a aplicação do princípio do bem-comum, pois concebe a sociedade como necessariamente hostil e dividida entre si em sua luta de classes e, por isso, insustentável até o advento do paraíso comunista.

Assim, a chamada “classe opressora” dos ricos é vista como verdadeira inimigos de classe, devendo ser expurgada tão logo seja possível, como se fez em todos os lugares em que o socialismo foi implantado (e, diga-se, o expurgo atingiu milhões de pessoas que não eram lá tão ricas assim).

Enfim, o bem-comum nos pede que ajamos sempre conforme a dignidade de todos, e não só de uma classe, como faz o marxismo – e é por isso que este é tão distante da verdadeira dignidade humana defendida pela DSI.

Princípio da Subsidiariedade

O comunismo, segundo Marx, seria o estado paradisíaco da sociedade em que não haveria mais propriedade privada, pois todos usufruiriam dos bens em um estado “comunal”, de acordo com sua necessidade. 

No entanto, é inevitável que nos perguntemos: quem transformará a sociedade e implantará isso? A resposta, por óbvio, não poderia ser outra senão esta: o Estado. Respondida a questão, pensemos sobre a consequência óbvia do que se acaba de dizer: se é o Estado a entidade que forçaria a equalização da sociedade, mediante a redistribuição igualitária dos bens para o posterior estado comunal, é lógico e necessário que ele mesmo seja mais forte do que os ricos capitalistas;  do contrário, não teria forças suficientes para enfrentá-los. 

Sendo assim, estamos falando numa concentração de poder que reuniria uma combinação sem precedentes: o exercício tanto do poder político, próprio do Estado, quanto do poder econômico, próprio de várias pessoas e grupos, unificado em uma única instituição. 

Isso, sob o prisma do princípio da subsidiariedade é inaceitável. Segundo esse princípio basilar da DSI, todos nós, incluindo o Estado, família e organizações diversas, devemos ter consideração pelas instâncias menores da sociedade. Nesse sentido, ao lidarmos com determinado problema, este deve sempre ser resolvido na sua instância própria e local, preferencialmente: conflitos na família resolvem-se na mesma família; no bairro, resolvem-se no mesmo bairro; na cidade, resolvem-se na mesma cidade; e assim sucessivamente. 

Com efeito, somente na incapacidade da instância menor em sanar a questão é que se deve encaminhá-la a uma instância superior e mais abrangente, como a estadual, no caso do problema na cidade. Sendo assim, é nesta premissa que se baseia a subsidiariedade: problemas locais são melhor resolvidos pelas pessoas que estão mais próximas deles; um burocrata de Brasília não conhece melhor os problemas de um bairro em Porto Alegre do que os próprios moradores desse bairro.

Portanto, o marxismo, com sua aspiração totalitária de concentrar o porvir social nas mãos do Estado, aniquila qualquer subsidiariedade, pois faz com que tudo e todos esteja sob e dominado pelo governo central. E mais: faz do Estado uma falsa religião, que implantaria a felicidade plena na terra. Nesse sentido, esclarece o professor Carlos Ramalhete:

O socialismo e o comunismo muitas vezes viram como que uma triste paródia materialista da religião católica, em que o partido faz as vezes da Igreja e os revolucionários são como os santos. É isto, por sinal, que explica o fenômeno – comum a praticamente todo Estado socialista – de culto à personalidade dos líderes, de quem são feitas e espalhadas por toda parte imagens enormes e outros sinais de aberta veneração. No socialismo, o líder máximo toma para si o papel de pontífice, daquele que construirá a ponte até o futuro melhor (que nunca chegará).

Família como base da sociedade

A família, como sempre nos ensinou a Santa Igreja, é a célula originária da sociedade. É no seio de uma família que as pessoas nascem, crescem, amadurecem e recebem educação e valores para que possam bem viver na sociedade. Sem a família, a sociedade não passaria de uma reunião de indivíduos que, como átomos soltos, não sabendo como se relacionar e conviver com outras pessoas desconhecidas, respeitando sua dignidade, segurança e liberdade, já que não lhes seria dada a base moral e emocional num seio de amor familiar, para tanto.

Por isso é que, para a Doutrina Social da Igreja, a família é a célula social mais importante, que deve ser sempre protegida. Como diz o Catecismo da Igreja Católica (2207): “A vida em família é a iniciação para a vida em sociedade”.

Por outro lado, vivemos em uma sociedade cada vez mais hostil à vocação familiar, tanto à da mulher, quanto à do homem. E tal hostilidade se deve, em grande parte, a influências do movimento marxista e revolucionário em geral: principalmente a partir da nova esquerda do século XX, com a Escola de Frankfurt e o marcusianismo – e posteriormente Antônio Gramsci –, os esforços das correntes revolucionárias em todo o mundo passaram a se concentrar, quase de forma unânime, ao ataque à instituição familiar. Esse ataque por sua vez se reveste de várias formas: pautas feministas, abortistas, gayzistas, antinatalistas, etc.

Tal investida da esquerda não é por acaso: os marxistas descobriram a importância da família como célula primeira sustentadora de tudo o que existe na sociedade. Destruindo-se a família, destrói-se todo o resto. E é isso que os revolucionários buscam. É também por isso que devemos sempre lutar contra essa ideologia nefasta, com fidelidade ao Magistério da Santa Igreja Católica.

Conclusão

Fica demonstrado, portanto, o quão distante um católico deve se manter desse tipo de movimento, se quiser manter a sua fé e verdadeiramente lutar pelo Reinado de Cristo.

Digamos, contudo, que nem este artigo nem o outro já escrito se pretendem artigos exaustivos sobre o tema, mesmo porque não seria possível fazê-lo no tão restrito espaço que ambos nos dispõem. São, tão somente, apontamentos que propõem direções, não necessariamente as únicas ou as melhores, de se perceber com mais clareza onde está o mal da ideologia revolucionária em face de Cristo e do que propõe Sua Igreja.

Por fim, roguemos à Santíssima Virgem para que ela sempre interceda por nós, jamais permitindo que, em nossa fragilidade sempre propensa ao pecado, confundamos o que Cristo e Sua Igreja querem com o que o mundo e suas ideologias nefastas constantemente nos propõem.

Referências bibliográficas

1-MARX. Miseria de la filosofia, p. 91.
2-RAMALHETE, Carlos. Doutrina Social da Igreja: uma introdução. São Paulo: QUADRANTE, 2017, p.36.

Leandro de Resende
 

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