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Marxismo e Cristianismo: opostos inconciliáveis

A oposição entre o Igualitarismo Marxista e a Pobreza Evangélica

· Introdução à DSI,DSI e Sociedade

“(...) qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). 

Nosso Senhor Jesus Cristo, nesta passagem e em muitas outras ao longo do Evangelho (por exemplo, no Sermão da Montanha), anuncia a necessidade de que seus seguidores se desapeguem das riquezas do mundo para participarem de Seu Reino, nisso consiste o Cristianismo. Em oposição a esse preceito, a corrente de pensamento do sociólogo Karl Marx apregoa a teoria segundo a qual na posteridade da história terá origem uma sociedade em que as riquezas serão distribuídas e ninguém mais a concentrará privadamente, nisso consiste o Comunismo.

Contudo, ambas as visões são recorrentemente confundidas e até mesmo igualadas. É necessário, pois, que realizemos um estudo do papel do elemento “riqueza” dentro dos dois contextos (cristão e marxista), a fim de melhor diferenciá-los. Nesse sentido, e com vista a uma melhor compreensão por parte do leitor, dividiremos tal empreitada em duas partes — uma dedicada a uma pequena reflexão do anúncio de Jesus Cristo, e a outra à do marxismo —, para em seguida demonstrarmos a incompatibilidade recíproca entre ambos.

A pobreza Evangélica

A vida de Cristo (sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição) constitui fonte de perdão, purificação e salvação para todos os homens: escravos de Satanás e do pecado, eles encontravam-se impossibilitados de receber a adoção divina e de entrar para a felicidade eterna do Céu. Tal impossibilidade se devia à natureza decaída do homem, resultante da desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Assim, para acabar com esse abismo entre a glória divina e a miséria humana, Nosso Senhor Jesus Cristo se encarnou e assumiu a natureza humana, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de tal modo que, unindo o céu e a terra na sua Pessoa Divina, fosse devolvida ao homem a Graça de Deus e, após a morte, lhe concedida a gloriosa Vida Eterna aos homens que se aproximassem d’Ele com devoção e lhe suplicassem o perdão.

Com efeito, no decorrer de seu Evangelho, Jesus elenca os diversos obstáculos com os quais as almas se debatem ao buscar tal aproximação d’Ele: desordem sexual, soberba e autoglorificação, maledicência, irascibilidade, avareza, etc. Dentre todos esses obstáculos, o apego às riquezas é altamente condenado por Nosso Senhor porque torna vicioso o objetivo da vontade humana: em vez de orientar todas as suas forças e disposições ao Cristo, verdadeira fonte de felicidade, o homem passa a idolatrar e a divinizar o dinheiro, depositando nele suas energias e esperando que dele venha sua felicidade. Como assevera o Catecismo da Igreja Católica (2545, 2547):

Todos os fiéis de Cristo devem dirigir retamente seus afetos para que, por causa do uso das coisas mundanas, por causa do apego às riquezas contra o espírito de pobreza evangélica, não sejam impedidos de tender à perfeição da caridade.O Senhor se queixa dos ricos porque encontram, na profusão dos bens, seu consolo (Lc 6,24). “O orgulhoso procura o poder terreno, ao passo que o pobre em espírito busca o reino dos céus” [Santo Agostinho].[1]

O Sermão da Montanha, em que Jesus nos chama ao desapego e à renúncia

O Igualitarismo Marxista

Analisemos, agora, o papel ocupado pela “riqueza” na sociologia de Karl Marx.

Resumidamente, pode-se dizer que o referido pensador, ao analisar a sociedade, enxerga nas relações econômicas o fundamento da vida humana. Para ele, o ser humano se realiza e se humaniza enquanto modificador da natureza, de que provêm seu alimento e os bens materiais comercializáveis e trocáveis. Marx assinala, então, sua visão de história: o materialismo.

Tal visão histórica, enxergando como a única realidade determinante o elemento material, provoca a aniquilação definitiva da esfera espiritual da vida humana. Assim, para os marxistas, a realidade se restringe ao mundo material, e tudo o que existe além dele é construção artificial decorrente desse mesmo mundo. “A classe inteira as cria [as religiões, as ideologias, as ideias, etc] e as plasma derivando-as de suas bases materiais e das relações sociais correspondentes”, diz Karl Marx [2].

Com efeito, prossegue a teoria marxista, as relações sociais de produção e as forças produtivas, que os homens experimentam à medida que criam novos produtos e trabalham, terminam num conflito: os capitalistas, detentores das fábricas e da matéria-prima, exploram e subjugam os pobres. Sinteticamente, pode-se dizer que tal exploração é inerente ao trabalho mesmo e que tende a sempre aumentar.

Assim, para Marx, os pobres encontram-se numa situação de progressiva exploração, ao passo que os capitalistas, lucrando com o aumento da produtividade da economia, ficam cada vez mais ricos. Daí Marx deduz que, como lei do porvir da história, os pobres hão de se ajuntar em sindicatos hostis e outras mais formas de organização, a fim de, exaustos e revoltados ante a contínua exploração, realizarem a ditadura do proletariado, dando fim e cabo a milênios de exploração – com o posterior comunismo, em que reinaria a plena igualdade social.

Atentemo-nos, pois, enfim, ao que realmente nos importa para o nosso artigo: Marx propõe (ou profetiza, aqui há diferentes interpretações) um igualitarismo social cujo fundamento é: os homens, devido às desigualdades nas relações de produção, irão lançar-se em sucessivas lutas na busca de um paraíso terrestre - o Comunismo.

Este seria o estado de coisas em que as riquezas, distribuídas e agora gozadas pelos indivíduos num estado “comunal”, não mais estariam concentradas nas mãos de poucos ricos.

O Massacre de Katyn (1940) - Na busca pelo mundo perfeito na terra, o comunismo

foi responsável pelo assassínio de 150 milhões de pessoas.

Conclusão

Postas tais explicações, a diferenciação entre a sociologia de Karl Marx e a atitude pedida por Nosso Senhor torna-se mais patente. Como bem explica o filósofo e historiador político Eric Voegelin:

A escatologia marxista [o porvir histórico, o fim da história] trata, certamente, de uma ordem social; a ordem social tem que ser mudada e as características sociais do proletário são a base para a expectativa escatológica [a expectativa do comunismo]. O Evangelho trata de um evento na ordem divina do mundo; a qualificação das pessoas para pertencer ao Reino é incidental à questão essencial da transformação da alma [3].

Ou seja: Enquanto Marx preconiza por uma distribuição materialista de riquezas, que nega a transcendência, Jesus Cristo ensina uma pobreza evangélica de transformação do coração, que agora, redimido de seus pecados, voa rumo às delícias celestes. É por isso mesmo que os cristãos compartilham suas riquezas mundanas com alegria, já que não veem mais importância nelas, ante a riqueza eterna trazida por Cristo.

Sintetizando o exposto, a diferença de atitude perante a riqueza entre a doutrina de Jesus Cristo e a sociologia marxista faz com que ambas se diferenciem radicalmente: para a fé cristã, o homem deve se desapegar dos bens mundanos para evitar a idolatria e dirigir o seu coração segundo o fim da ordem celeste; para o marxismo a distribuição das riquezas ocorrerá mediante a convulsão social empreendida pelos proletários.

Dessa forma, ademais, também não é difícil percebermos como a visão igualitarista marxista não só se diferencia mas se opõe frontalmente à renúncia aos bens pedida pelo Evangelho. Ora, se esta ocorre mediante a transformação do coração com o fim de amar a Deus, então não pode coexistir com o marxismo, que, reduzindo a realidade ao mundo material, acaba por limitar a ação do homem a essa mesma realidade diminuída e fazê-lo concentrar suas forças segundo o fim de uma pretensa bem-aventurança intramundana – o comunismo.

Assim, por conclusão lógica, se o homem reúne suas energias com o fim de espoliar os ricos e construir um paraíso terrestre, que nega a Deus, o seu coração não pode estar voltado à participação no Reino Celeste: ele está, na verdade, direcionado às riquezas mesmas, pois da distribuição delas depende sua felicidade. Daí que o igualitarismo marxista, muito embora frequentemente se vista de uma aparência de cristianismo, produz exatamente o oposto do que pede Nosso Senhor. Nesse sentido ensina o Cardeal Joseph Ratzinger:

Reconhecer como realidade apenas as realidades políticas e materiais e deixar de lado Deus, tendo-o como uma ilusão: aqui está a tentação que de muitas formas hoje nos ameaça” [4].

Referências Bibliográficas:

1.   Catecismo da Igreja Católica, Edições Loyola, 2013, p. 653.

2.   MARX. El dieciocho brumario de Luis Bonaparte, p.276.

3.   VOEGELIN, Eric. Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo: História das Ideias Políticas: É Realizações. p.210.

4.    RATZINGER, Joseph, Jesus de Nazaré, v. 1, Editora Planeta, p.35.

Leandro de Resende

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