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Façamos penitência, portanto, e para depois deixemos as festas.”

No decorrer da história, vários foram os períodos em que a humanidade se viu diante de um obstáculo “invisível” mas com efeitos desastrosos a olhos nus. A pandemia que vivemos hoje não é a única que nos períodos mais recentes assolou a vida em sociedade. Outros exemplos são o avanço da Cólera na segunda metade do séc. XIX e a gripe espanhola no início do séc. XX. Se hoje nos encontramos perplexos ante o avanço da Covid-19 e até mesmo nossa vida religiosa é abalada diante dessa situação, um resgate de nossos antepassados que enfrentaram pandemias piores do que a de agora pode nos ajudar a retificar nosso coração, elevar nosso olhar para o único que sempre foi e sempre será nosso refúgio, Nosso Pastor em quem confiando nada nos faltará.

Quando no início do séc XX, mais especificamente entre os anos de 1918 e 1920, a pandemia da Gripe Espanhola assolou o mundo, o Brasil não ficou de fora dessa calamidade e muitos em nossa terra sofreram com esse mal. Chamada assim por ter feito na Espanha o maior número de vítimas, estima-se que em todo o mundo cerca de 400 milhões de pessoas foram contaminadas, com milhões de mortes.

Se em todas as cidades brasileiras o risco da peste preocupava os moradores, em Juiz de Fora - Minas Gerais, o medo e os efeitos também se espalhavam.

  

 

“Naquele ano, a cidade viveu a maior tragédia de sua história. Em 19 de outubro estava contando com o preço sinistro da passagem da gripe, que matou 556 pessoas, sem considerar as muitas vítimas que tombaram na zona rural, onde a pressa para o sepultamento descontrolou a comunicação dos óbitos. Mas é certo que a gripe eliminou 6% da população. Foram 400 milhões de infectados pelo mundo, sendo 300 mil no Brasil, onde a mais ilustre vítima seria o presidente Rodrigues Alves.” [1]

 

  

O cenário trágico gerado pela gripe Espanhola no Brasil, com número elevadíssimo de mortes por dia, foi marcado por hospitais abarrotados, comércio fechado, Igrejas com missas canceladas e diversas outras medidas de saúde pública e contingenciamento populacional que hoje nos assustam, com razão. Em cenário tão desolador, assim como hoje, a população, majoritariamente católica, não deixava de insistentemente pedir a Deus que por misericórdia nos livrasse de tantos males. Se hoje, o cancelamento das Missas, a restrição dos sacramentos e a proibição das aglomerações mesmo para eventos religiosos nos deixa em estado de solidão espiritual, precisamos redescobrir aquilo que, nas palavras do ilustre Padre Júlio Maria de Moraes Carneiro[2], em terras juiz-foranas, alertava a população. São reflexões profundas e atuais a respeito da postura religiosa necessária ante o risco das pestes, como a cólera, varíola e febre amarela que assolaram o séc XIX e a gripe espanhola que viria a acometer o mundo e a população de Juiz de Fora 20 anos após os escritos abaixo relembrados.

    

O “substancial”, entretanto, seria que a cidade fizesse penitência; que todos os cristãos, homens e mulheres, na devida idade, se confessassem e comungassem.

Também a multidão dos fiéis vive persuadida de que o essencial da piedade é isso que ela pratica e não a penitência.

A penitência, diz iluminado mestre da vida espiritual, é um caráter imperecível do catolicismo; é o dever essencial do cristão.Necessária sempre para obter a graça, para conservá-la, para multiplicá-la, sem a penitência a vida cristã não é mais que uma ilusão. Por isso a primeira palavra de Jesus Cristo no seu ministério público foi: “Fazei penitência”.

Entretanto, o que, em geral, vemos nas outras paróquias como nesta, onde a confissão e comunhão não se ampliam nunca além do mesmo círculo, reduzida sempre a penitência ao mesmo grupo, e de mulheres, é o fervor dos fiéis pelo “acidental”, e o desprezo pelo “substancial” do culto.”

[3]

    

Pe. Júlio Maria de Moraes Carneiro

Padre Julio Maria de Moraes Carneiro

Se hoje, enfrentando a Covid-19, está proibida a comunhão frequente, a participação da Santa Missa e as festas na Igreja, voltemos àquilo que ainda nos é possível e sempre será essencial: a vida interior, nunca impossível para nós se confiarmos na graça de Deus. Se as festas exteriores nos são proibidas, os sacramentos impossibilitados ou dificultados, a piedade interior e a penitência serão o sustento e o edifício que em meio ao desespero atual permitirão que a Cruz de Cristo permaneça erguida em nossa alma, em nossos lares e em nossa sociedade.

“Deus não mente quando nas suas Escrituras promete aos homens como aos povos transformar a sua justiça em misericórdia sempre que se humilharem.

A penitência, portanto, desta paróquia seria para ela um escudo invencível contra os males que a ameaçam; e ao próprio S. Sebastião, o intercessor contra a peste, agradaria muitíssimo mais essa obediência à lei divina do que a tal festa que se quer fazer.

Não; não são festas que Deus exige dos homens e povos impenitentes: é a confissão dos seus pecados.

Porque, ao menos sob a ameaça de uma calamidade tão grande não havemos de compreender o nosso dever, e trocar essas simples exterioridades de religião, que não tem produzido grande resultado em Juiz de Fora, pelos meios profícuos que a Igreja nos subministra?

Não há uma só cidade que, tendo recorrido à penitência para se livrar dos flagelos mais horríveis, não tenha forçado a onipotência divina a protegê-la e garanti-la.”

[4]

 

É essa mesma a mensagem de Fátima, 1 anos antes da Gripe Espanhola, e 102 anos antes da Covid19… Penitência, Penitência, Penitência… clamou o anjo apontando com a mão direita para a terra[5].

  

 

“Não festas; mas penitência: eis o brado que sai das profundezas desse Tabernáculo, donde o Deus Desprezado diz à cidade cheia de pânico e terror: “Cidade infiel! Porque temes a peste, a desolação e a morte, se tens em mim o remédio, a alegria e a vida?! Toda tua confiança, Eu sei, estava nos meios humanos; tu os aplicaste; mas eles estão esgotados: só te resta a Minha Misericórdia. Eu desejo, eu quero dispensar-la; mas a Minha Misericórdia não contradiz as leis e os preceitos da Minha Igreja. Só a penitência inutiliza a Justiça Divina. A Minha própria onipotência não pode perdoar aos corações que não se humilham. Eu que fiz os céus e a terra, Eu que fiz todas as criaturas, não posso fazer do pecador um justo, se o pecador não se arrepende da sua iniquidade. Eu desejo, Eu quero o teu sossego, a tua paz, a tua felicidade; mas é preciso que te humilhes, te arrependas e confesses os teus pecados. Nos teus templos já tenho visto muitas festas, muitas rezas e devoções; é preciso agora que Eu te veja contrita e humilhada.”[6]

  

Acolhamos esse pedido! Humildemente nos prostremos, no escondido de nossos lares, e roguemos Misericórdia a Deus para que conforme sua providência guie os destinos da humanidade e nos permita em tempos como este não esquecer do essencial.

“Façamos penitência, portanto, e para depois deixemos as festas.”

por Thiago Amorim

[1] CID, Wilson.A espanhola - Epidemias que passaram por aqui. À margem do Paraibuna.Juiz de Fora, 2018

[2] Júlio Maria, grande apologista católico, foi padre diocesano, incardinado na Arquidiocese de Mariana, e morou em Juiz de Fora como capelão da Igreja de São Sebastião. Em 1905, entrou para a Congregação Redentorista e foi transferido posteriormente para o Rio de Janeiro, onde morou até sua morte.

[3] Padre Julio Maria de Moraes Carneiro. O Deus Desprezado.

[4] Ibidem.

[5] Terceiro segredo da Mensagem de Fátima

[6] Padre Julio Maria de Moraes Carneiro. O Deus Desprezado.

[7] Ibidem.

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