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Existe um ambientalismo cristão?

Vários papas já abordaram o tema da defesa do meio ambiente, hoje desordenado pela ideologia ambientalista

· Introdução à DSI,DSI e Sociedade

Como a Igreja aborda a questão da defesa do meio ambiente? É possível ser católico e ambientalista? A resposta a essas perguntas é simples, mas tornou-se extremamente confusa nas últimas décadas, com a cegueira generalizada da realidade que suscitam as ideologias na sociedade.

Como se não bastasse, ainda mais confusos ficaram os católicos, na medida em que a mídia, maliciosamente, conferiu o posto de revolucionário e progressista ao Papa Francisco por seus ensinamentos na Carta Encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum. Mas será que é realmente novo na história do Cristianismo o que disse o Santo Padre? Seria novo, mesmo nos documentos que compõem a Doutrina Social?

Na verdade, não.

Os problemas ambientais sempre existiram de alguma maneira, mas começaram a provocar grandes desequilíbrios após a Revolução Industrial e a tomar magnitude global no último século. Assim, a primeira menção ao meio ambiente nos documentos papais que compõem a Doutrina Social da Igreja foi em 1971, por São Paulo VI, na Octogesima Adveniens:

À medida que o horizonte do homem assim se modifica, a partir das imagens que se selecionam para ele, uma outra transformação começa a fazer-se sentir, conseqüência tão dramática quanto inesperada da atividade humana. De um momento para outro, o homem toma consciência dela: por motivo da exploração inconsiderada da natureza, começa a correr o risco de destruí-la e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação. Não só já o ambiente material se torna uma ameaça permanente, poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto; é mesmo o quadro humano que o homem não consegue dominar, criando assim, para o dia de amanhã, um ambiente global, que poderá tornar-se-lhe insuportável. Problema social de envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana. O cristão deve voltar-se para estas perspectivas novas, para assumir a responsabilidade, juntamente com os outros homens, por um destino, na realidade, já comum. [1]

Fica claro, nesse trecho, que um dos fins da justa preocupação ambiental é o próprio homem. Os problemas ambientais ferem toda a humanidade, especialmente os mais pobres, vulneráveis às intempéries e sem recursos para delas se esquivarem. Nesse ponto, portanto, surge a primeira diferença entre a visão cristã do meio ambiente e a visão do ambientalismo ideológico dominante: nesta linha de pensamento, a natureza é elevada a um grau de divindade e o homem subjugado ao nível de parasita ou vassalo; naquela, o homem tem reconhecida sua dignidade e especial lugar na criação.

"Deus os abençoou (o homem e a mulher): "Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra." (Gn 1, 28)

Surge, no entanto, outro perigo, que é tender à visão ideológica oposta, do grande capital, motivada por ambições globais das empresas multinacionais [2]: colocar a natureza como mero objeto de livre dominação humana e a economia como soberana sobre qualquer aspecto da criação. A submissão da natureza ao homem também implica uma responsabilidade, como advertiu São João Paulo II:

O domínio conferido ao homem pelo Criador não é um poder absoluto, nem se pode falar de liberdade de «usar e abusar», ou de dispor das coisas como melhor agrade. A limitação imposta pelo mesmo Criador, desde o princípio, e expressa simbolicamente com a proibição de «comer o fruto da árvore» [cf. Gén 2, 16-17], mostra com suficiente clareza que, nas relações com a natureza visível, nós estamos submetidos a leis, não só biológicas, mas também morais, que não podem impunemente ser transgredidas. [3]

Infelizmente, essa postura de respeito à Criação, como sinal do Criador, tem enfrentado resistência entre os cristãos, temerosos de se aliarem àquela idolatria da natureza característica da esquerda ambientalista, o que lhes leva ao extremo oposto: aderir ao indiferentismo ao meio ambiente. Sobre esse temor – aliás, compreensível – têm enorme responsabilidade os católicos que, publicamente, rotulam o Papa Francisco como promotor de ideologias materialistas, anticristãs, fazendo propaganda para o inimigo ao rejeitar os ensinamentos papais e lê-los superficialmente.

Como visto, já o Beato Paulo VI e São João Paulo II abordaram o assunto. Na verdade, esse tema remonta a séculos passados da tradição cristã, como lembra o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, citando o último santo:

Em particular, as espiritualidades beneditina e franciscana têm testemunhado esta espécie de parentesco do homem com o ambiente da criação, alimentando nele uma atitude de respeito para com toda a realidade do mundo circunstante. [4]

Em particular, as espiritualidades beneditina e franciscana têm testemunhado esta espécie de parentesco do homem com o ambiente da criação, alimentando nele uma atitude de respeito para com toda a realidade do mundo circunstante. [4]

Os jornalistas esquerdistas que criaram o mito do Papa revolucionário, certamente, não se esqueceram – apenas ocultaram ou não se deram ao trabalho de pesquisar – da abordagem sobre o problema ambiental de Bento XVI, etiquetado pela mesma mídia como o Papa reacionário:

O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências. Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação de Deus. [5]

Desse modo, o Papa emérito cristaliza a questão, que, como em muitas outras analisadas à luz da Doutrina Social, exige prudência para que não se caia nas ciladas ideológicas. Sem dúvida, frequentemente teremos que pisar em ovos ao tratar do problema ambiental, exatamente por essas teias que estão emaranhadas em toda a sociedade. Para responder à pergunta do primeiro parágrafo: não, não é possível ser católico e ambientalista, se se trata da luta ambiental costumeira, que tem suas raízes numa profunda corrupção moral, como expõe o Papa no trecho anterior.

Mas não podemos ficar de braços cruzados, esperando que o problema se resolva. Precisamos elaborar um verdadeiro ambientalismo, livre das amarras ideológicas da luta ambiental de hoje. Precisamos elaborar um ambientalismo cristão, no qual a visão da natureza se dê à luz da Fé, nunca rebelando-se contra o especial lugar do homem na Criação, cujo papel é de custodiá-la [6]. Como fazê-lo, veremos em um próximo artigo!

Matheus Godoi

Referências bibliográficas

  1. São Paulo VI, Octogesima Adeveniens, nº 21.
  2. Roger Scruton, Como Ser um Conservador.
  3. Papa São João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis, nº 34.
  4. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 464.
  5. Papa Bento XVI, Caritas in Veritate, nº 48.
  6. Carlos Ramalhete, Doutrina Social da Igreja: uma introdução.
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