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Doutrina Social nos Evangelhos

Os princípios básicos da Doutrina Social extraídos da Parábola do Bom Samaritano 

· Introdução à DSI,DSI histórico

É artigo de fé que a salvação de cada pessoa está diretamente ligada e condicionada pelas atitudes tomadas durante sua vida terrena. Em função disso, existe um vínculo indissociável entre a Ordem Natural e a Ordem Sobrenatural, de modo que cada ato no mundo deverá ter como objetivo a dignidade da pessoa humana (de ordem natural) para a glória de Deus (de ordem sobrenatural).

Com essa consciência, a Igreja viu a necessidade de reunir e propor princípios de reflexão acerca da edificação do mundo material e temporal, apresentando critérios de juízo e orientações para a ação concreta do homem no mundo. Visa ela, ao propor tais princípios, esclarecer e conduzir aspectos da vida em comunidade para que esta esteja em comunhão com as leis divinas apresentadas na Revelação.  

A reunião desses princípios configura a Doutrina Social da Igreja, um corpo doutrinário que sempre existiu, mas que antes estava diluída no pensamento teológico católico e que foi, por fim, sistematizada em documentos magisteriais a partir de 1891.

A Doutrina Social se alicerça na comunhão entre o direito natural e os eternos ensinamentos evangélicos, apresentando direcionamentos de cunho moral e espiritual a fim de conduzir a ação pessoal do homem para o sadio convívio em sociedade por meio da prática da justiça e da busca pela paz.

Diferentemente das utopias e ideologias que se proliferaram no Ocidente nos séculos XVIII e XIX, a Doutrina Social da Igreja não tem como meta a edificação de um “paraíso terreno” e sim a busca pelo bem comum entre os homens e sociedades, embasando-se sempre na tradição bimilenar da Igreja. Isso enfatiza o Catecismo em seu §2421:

O desenvolvimento da doutrina da Igreja em matéria econômica e social, atesta o valor permanente do ensinamento da Igreja e, ao mesmo tempo, o sentido verdadeiro de sua Tradição sempre viva e ativa.

Ademais, tudo quanto existe na Doutrina Social da Igreja tem como base segura e livre de erros, os ensinamentos divinos revelados nas Sagradas Escrituras. Assim, cada princípio da doutrina social tem amparo e equivalência, principalmente, nos Dez Mandamentos (Ex 20), em especial no 5º, 7º, 8º e 10º Mandamentos. Neles, estão estabelecidas proibições visando diretamente o bem comum, por meio do respeito à dignidade da pessoa humana (não matar), da justiça (não roubar), da busca da honra e da verdade (não levantar falso testemunho) e da preservação do homem em relação à corrupção material (não cobiçar as coisas alheias).

Porém, são nas palavras de Jesus Cristo nos Sagrados Evangelhos que estão mais claras as exigências divinas de justiça e de paz nas quais se embasa a Doutrina Social. O exemplo mais emblemático é, sem dúvida, o ensinamento de Cristo sobre nossa relação com o dinheiro: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24 - Lc 16,13), famosa máxima evangélica que é um dos princípios básicos da Doutrina Social. Seu desrespeito provoca gravíssimas consequências, como preconiza o §2424 do Catecismo:

Uma teoria que faz do lucro a regra exclusiva e o fim último da atividade econômica é moralmente inaceitável. O apetite desordenado pelo dinheiro não deixa de produzir seus efeitos perversos. Ele é uma das causas dos numerosos conflitos que perturbam a ordem social.

A destruição da dignidade humana provocada pela busca incessante de dinheiro a qualquer custo conduz, bem sabia Jesus, à anulação dos indivíduos e à destruição das famílias, assim como à desagregação dos grupos e organizações que querem promover o bem comum.

Desta feita, para resolver os conflitos que desrespeitam a dignidade humana na vida social, a Igreja extraiu das palavras e exemplos de Cristo nos quatro Evangelhos uma série de princípios gerais do Bem Comum, da Subsidiariedade, da Destinação Universal dos Bens, da Participação e da Solidariedade, nos convocando à sua aplicação.

Na conhecida parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 30-37) podemos encontrar uma base sólida de aplicação de alguns desses princípios.

Examinemos atentamente o Sagrado Texto.

Jesus nos conta que certo homem, após sofrer injustiça pelas mãos de assaltantes, foi deixado na estrada para morrer. Muitos viajantes passaram pela estrada, mas desviaram do pobre homem, deixando-o onde estava. Porém, um samaritano que passava pelo local solidarizou-se com a situação do estranho ferido e foi até ele e o socorreu (princípio da solidariedade). Ele não aguardou que as autoridades pudessem intervir, mas tomou ele mesmo a iniciativa da resolução, pois era o mais próximo do problema (princípio da subsidiariedade). Cuidando do homem, o samaritano conduziu-o até uma hospedaria, deixando dinheiro para que o ferido fosse cuidado e prometendo voltar para pagar os custos extras, usando, assim, seus próprios recursos de propriedade particular, em proveito de alguém que necessitava (princípio da destinação universal dos bens).

O breve e simples exemplo dessa tão famosa parábola é apenas um caso de vários outros espalhados pelas Sagradas Escrituras do que mais tarde seria sistematizado como Doutrina Social da Igreja.

É isso o ensinado pela tradição da Igreja, conforme ensina o Catecismo em seu §2422:

O ensinamento social da Igreja abrange um corpo de doutrina que se articula à medida que a Igreja interpreta os acontecimentos ao longo da história, à luz do conjunto da palavra revelada por Jesus Cristo, com a assistência do Espírito Santo. Este ensinamento se torna mais aceitável aos homens de boa vontade quanto mais profundamente inspira a conduta dos fiéis.

Daniel Pinheiro

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