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Como começar uma vida intelectual?

Aprenda com o Frei Sertillanges quais os passos iniciais e fundamentais da vida intelectual

· Resenha de Livro

Antonin-Dalmace Sertillanges, nascido em Clermont-Ferrand, na França, no dia 16 de novembro de 1863, foi um religioso tomista francês, cuja principal obra, “A Vida Intelectual”, tem sido essencial para a formação daqueles que desejam seguir uma verdadeira vida de estudos.

Sertillanges nos adverte que uma vida de estudos séria vai além da simples busca por informação, trata-se de um chamado de Deus, uma verdadeira vocação. Entretanto, com a perda da ideia de vocação na sociedade moderna, as pessoas não sabem mais a qual propósito servir e o porquê de servir a um propósito, vivendo em uma busca cega por prazeres efêmeros e realização de desejos e vontades próprias que as levam a uma decadência intelectual.

E é por isso que, para Frei Sertillanges, aqueles que buscam uma vida de estudos séria, devem estar no que ele chama de “estado de graça do intelectual”, caracterizado pelo silêncio interior, por um hábito de recolhimento, pela abdicação aos prazeres e pela integra absoluta, tornando-se um escravo da Verdade.

Com isso, é preciso ter em mente que a vida intelectual impõe obrigações severas e traz lentas compensações e reconhecimentos, porém, diante de uma tarefa que parece ser praticamente impossível aos olhos do mundo moderno, Sertillanges apresenta princípios valiosos que são indispensáveis para qualquer estudante em busca de se tornar um intelectual. Alguns desses princípios abordados em seu livro "A Vida Intelectual" serão tratados resumidamente a seguir.
 

  • PACIÊNCIA: Uma vez que a busca humana pelo conhecimento é incessante e preenche facilmente o tempo de toda uma vida, pode-se dizer que todo o conhecimento adquirido por meio de experimentos, leituras e escritos transcende a existência humana na terra. O domínio dos mais diversos assuntos e áreas de conhecimento demanda tempo e é por isso que todos aqueles que desejam seguir uma vida intelectual devem ser pacientes. Sertillanges adverte que a “paixão” pela leitura, da qual muitos se vangloriam, é, na verdade, uma tara e não se difere em nada das demais paixões que dominam e aprisionam a alma. Segundo ele, deve-se ler e estudar inteligentemente e não apaixonadamente. As leituras com ritmo mecânico e automatismo mental deixam de ser trabalhos efetivos. Por fim, para que o intelectual busque essa virtude, é sempre valioso recordar o que dizia Santo Agostinho: “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência”.
  • DISCIPLINA: Para que o trabalho seja constante, o estudante deve ser disciplinado, o horário destinado aos estudos deve ser valioso, sendo válido, inclusive, abdicar de longas horas de estudo em prol de um trabalho mais intenso e esforçado. Sertillanges sugere que um tempo mínimo de duas horas de estudos diários é o suficiente para o destino intelectual, porém, segundo ele, esse tempo deve ser bem administrado, pois é um tempo em que o intelectual mergulhará na fonte que sacia e que torna a dar sede. Durante os estudos a solidão deverá ser defendida com unhas e dentes, pois, para bem administrar as curtas horas, o estudante deve estar totalmente recolhido, a fim de proporcionar um intenso contato consigo próprio. De acordo com o autor, essas horas de estudo são mais bem aproveitadas durante a manhã, pois o corpo e a mente estão descansados e a alma está “refrescada”, fazendo com que o estudante possa se doar por inteiro, fazendo da manhã um momento sagrado do dia. Por fim, vale lembrar que, sem a disciplina, o trabalho fica pela metade e, segundo Sertillanges, um trabalho pela metade é o mesmo que um descanso pela metade, não beneficia nem o descanso e nem o estudo.
  • VIDA ESPIRITUAL:  A saúde da alma é indispensável para pensar adequadamente e, por isso, os vícios e amores doentios não devem fazer parte da vida de um intelectual, pois trituram e dilaceram o coração humano. É importante lembrar que o estudo desenfreado, sem a prática da prece, da leitura das Sagradas Escrituras e da busca de inspiração na vida dos santos é um tremendo descuido com a saúde da alma. O estudante não deve se enganar pensando que será possível progredir dessa forma. Sertillanges nos lembra que não se deve ser amigo do prazer, pois corre-se o risco de, rapidamente, tornar-se inimigo do próprio corpo e da própria alma, uma vez que aqueles que obedecem à carne estão prestes a se tornar carne, enquanto devem se tornar inteiramente espírito. É necessário, ainda, recordar que o caminho para se tornar um escravo da verdade é trilhado por meio da obtenção das verdadeiras virtudes da alma e é por isso que o intelectual cristão é um consagrado, já que, para ele, a Verdade está presente na afirmação de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14,6

Esses são apenas alguns dos diversos princípios e orientações extraídos da leitura da obra "A Vida Intelectual" de Sertillanges. Os ensinamentos deste grande homem são muito valiosos para os que buscam seguir uma vida de estudos, protegendo o estudante das ideologias que inundam as sociedades do mundo moderno, convencendo-o da necessidade de estar sob a luz da Verdade.

Por isso, é importante lembrar que para se fazer o bem não bastam apenas as boas intenções, a sabedoria é fundamental, tendo sempre em mente a regra de ouro inserida por Santo Tomás entre seus Dezesseis Preceitos: “Não olhes de quem tu ouves as coisas, mas tudo o que se disser de bom, confia-o à tua memória”.

Por fim, com o intuito de fomentar a leitura da obra de Sertillanges, vale apreciar as magníficas palavras do autor acerca do ensino:

“O ensino não nos fornece senão meios de agir espiritualmente, como a medicina oferece a nosso corpo meios de curar-se; mas assim como medicina alguma tem força de ação sobre um organismo inerte, ensino algum será bem-sucedido se o espírito que o recebe for negligente. Na realidade, a natureza se cura por si e o espírito só é iluminado por sua própria luz, a menos que se diga: pela luz de Deus infundida nele, segundo as palavras do Salmo: “A luz da tua face está impressa em nós, Senhor” (Salmos 4:7). Assim, Deus é afinal nosso único Mestre, Ele que nos fala de dentro, e é Dele conosco que nos vem toda instrução; de homem para homem, o pensamento é rigorosamente incomunicável.”

O livro "A vida intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos" pode ser adquirido, entre outras, nas livrarias Ecclesiae e Quadrante.

Igor Araújo

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