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Christifideles Laici (1988): o "manual" da atuação do leigo no mundo

Comemoração dos 30 anos da magistral Exortação Apostólica de São João Paulo II sobre o papel dos leigos no mundo

· Encíclicas

A vocação e a missão dos leigos na Igreja e no Mundo” [1] não são temas recentes na Igreja. Isso porque, apesar da crescente reflexão acerca da vida laical ter ganhado força no séc XX, seu significado e dignidade sempre foram reconhecidas pela Igreja, visto emanarem não de atribuições meramente externas da hierarquia da Igreja, mas sim do próprio batismo.

Uma vez “incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, os leigos exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo” [2]. Portanto, apesar de ser necessária uma fundamentação e uma maior tomada de consciência a respeito desse chamado, é preciso compreender a perene ligação da vocação laical ao todo que é Igreja. Os leigos, como o Povo de Deus, são impelidos pela graça de Cristo a contribuírem, de maneira própria e específica, para a salvação das almas e para a santificação temporal.

Foi no intuito de aprofundar o mistério da vida dos leigos que São João Paulo II, seguindo a linha de reflexão do Concílio Vaticano II, propôs aos bispos do mundo inteiro um Sínodo sobre a vocação e a missão dos leigos. Realizado em 1987, o Sínodo marcou a história da Igreja justamente por afirmar de forma bem consolidada os fundamentos da vida laical e suas possibilidades de vivência apostólica. A belíssima conclusão do Sínodo é, então, apresentada na Exortação Apostólica Christifideles Laici, que serviu de grande inspiração para ressoar na Igreja a necessidade dos leigos assumirem o seu papel em meio a um mundo que não poupa esforços para fazer calar a voz de Cristo.

João Paulo II, na exortação, elucida de maneira detalhada os diversos pontos acerca da temática dos leigos sob o pano de fundo da parábola dos trabalhadores da vinha: “O Reino dos céus é semelhante a um proprietário, que saiu muito cedo, a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou eles um denário por dia e mandou-os para a vinha”. (Mt 20, 1-2).” Segundo o papa, “a vinha é o mundo inteiro, que deve ser transformado segundo o plano de Deus em ordem ao advento definitivo do Reino de Deus” e os trabalhadores são os “homens e mulheres, a multidão de pessoas”, que ele chama e envia para trabalhar nela.

É este o sentido da missão do leigo: receber com alegria e magnanimidade o chamado de Cristo a, renovados por Sua graça, ordenar a realidade temporal a Ele, elevando e santificando toda a sociedade em suas diversas instâncias. Nessa descoberta, e ao longo do cumprimento desse grandioso chamado, não estão os leigos imunes a tentações e deturpações do justo cumprimento do dever. O papa elenca dois grandes problemas da vida dos leigos que devem ser combatidos e corrigidos veemente, de um lado o clericalismo e de outro a incoerência de vida. Nas palavras do papa:

Em especial podem recordar-se duas tentações, de que nem sempre souberam desviar-se: a tentação de mostrar um exclusivo interesse pelos serviços e tarefas eclesiais, por forma a chegarem frequentemente a uma prática abdicação das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, econômico, cultural e político; e a tentação de legitimar a indevida separação entre a fé e a vida, entre a aceitação do Evangelho e a acção concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas.

Não se faz necessário aqui atentar-nos para a grande crise que o mundo vive, crise essa de fé e moral e intimamente relacionada à crise da Igreja, mas cabe recordar-nos que é justamente nesse meio que os homens e mulheres de Cristo devem, com sua vida e trabalho, contribuir para a expansão do Reino de Cristo, que primeiramente realiza-se nos corações e tende, como o fermento apresentado no Evangelho, a se espalhar na ordenação de tudo a Cristo.

Diz São Josemaria Escrivá:

“Nesta época de desmoronamento geral, de transigências e de desânimos, ou de libertinagem e anarquia, parece-me ainda mais atual aquela simples e profunda convicção que, nos começos do meu trabalho sacerdotal e sempre, me consumiu em desejos de comunicar à humanidade inteira: Estas crises mundiais são crises de santos.”

Cabe portanto aos leigos refletirem e reagirem ante a voz do Mestre que interpelou os trabalhadores da vinha: “Por que estais aqui parados o dia inteiro?”. Há uma vinha inteira para edificar, há um mundo para santificar, há pecados pessoais e estruturas de pecados a serem combatidos e há almas para salvar.

Diante de todas as errôneas filosofias e deturpações da doutrina católica e, também, da redução e instrumentalização da vivência laical, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici busca emitir luzes e clarear dúvidas para que o eixo central da vida de cada leigo seja a máxima pregada pelo Concílio Vaticano II: o chamado universal à Santidade e a necessidade de, na realidade em que cada um se encontra, devolver a Cristo Rei o que de direito é d’Ele, cada pessoa e a sociedade mesma.

E os leigos, por sua vez, devem tender à santidade, dedicando a Deus todas as obras diversas da vida ordinária. Essa é, como disse, a via fundamental de santificação para todos os cristãos, leigos, sacerdotes e religiosos… Permanecendo no mundo, a vida inteira dos leigos deve fazer-se santificante para eles. E concretamente essas dimensões, que são as ordenadas mais peculiares da vida laical o matrimônio e a família, o trabalho e a renovação do mundo secular" [3].

Os leigos são “o verdadeiro tesouro escondido dentro da Igreja e da sociedade” [4] e devem redobrar os ânimos e escutar a voz de nossos santos pastores, que dizem que:

“os nossos tempos, porém, não exigem um menor zelo dos leigos; mais ainda, as condições atuais exigem deles absolutamente um apostolado cada vez mais intenso e mais universal … e dado que no nosso tempo surgem novos problemas e se difundem gravíssimos erros que ameaçam subverter a religião, a ordem moral e a própria sociedade humana, este sagrado Concílio exorta ardentemente os leigos a que, na medida da própria capacidade e conhecimentos, desempenhem com mais diligência a parte que lhes cabe na elucidação, defesa e reta aplicação dos princípios cristãos aos problemas do nosso tempo, segundo a mente da Igreja” [5].

A fim de facilitar a compreensão desse documento, elaboramos um infográfico com os principais pontos expostos na exortação, os problemas, as falsas soluções e as soluções reais dadas pelo Santo Padre com base nos princípios expostos.

O Instituto São Pedro de Alcântara preparou um infográfico apresentando os princípios pontos dessa importante encíclica. Não deixe de baixá-lo!

Thiago Martins

Referências

[1] Chritifidelis Laici, na íntegra.

[2] Lumen Gentium n.31.

[3] Caminos laicales de perfeccion. Jose Maria Iraburu - Fundacion Gratis Date.

[4] Mensagem introdutório - Documento 107A - Cristão Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade. CNBB.

[5] Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos. São Paulo VI, 1965.

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