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Antinatalidade

As forças por trás da mentalidade antinatalista e a posição da Doutrina Social da Igreja a respeito dela

· DSI e Sociedade

Comentando a tentativa de se introduzir a Ideologia de Gênero nos sistemas educacionais, o Papa Francisco, em certa entrevista, considerou essa e outras iniciativas da agenda globalista como verdadeiras colonizações ideológicas que desprezam a consciência, os valores e as crenças das populações nacionais em prol de uma agenda externa a essas populações:

"Esta é a colonização ideológica: entram num povo com uma ideia que não tem nada a ver com o povo; sim, com grupos do povo, mas não com o povo, e colonizam o povo com uma ideia que muda ou quer mudar uma mentalidade ou uma estrutura…” [1]

O Papa São João XXIII, em sua encíclica Mater et Magistra (1961), já tinha abordado o tema ao tratar da influência das grandes potências sobre os países mais pobres, dizendo que:

"deve-se declarar explicitamente que estamos diante de nova forma de colonialismo, a qual, por mais habilmente que se disfarce, não deixará de ser menos dominadora do que a antiga que muitos povos deixaram recentemente.” [2]

A agenda de gênero está, porém, inserida em uma agenda bem mais ampla: aquela chamada pelo Papa São João Paulo II de “Cultura da Morte”. É essa a estrutura que as forças globais tentam inocular nas sociedades modernas através da colonização ideológica sobre a qual falava o Papa Francisco e da qual faz parte a tentativa de controle populacional exercido sistematicamente há quase um século por diversos governos e instituições mundiais.

Em seu memorável livro “IPPF - A Multinacional da Morte” o advogado argentino Jorge Scala atenta para o interesse por trás da “agenda antinatalista” de controle populacional promovendo a seguinte reflexão:

“[...] o chamado mundo desenvolvido está empenhado em que os países do Terceiro Mundo cheguem a ter diminuições de fecundidade similares às suas próprias. O argumento é manter o atual equilíbrio demográfico, que lhes permita uma dominação econômica com sua correlativa dominação política; e a ameaça mais grave a tal status quo é que o Terceiro Mundo continue aumentando sua população como até agora. Para atingir o objetivo de reduzir as populações, o imperialismo contraceptivo não poupa nenhum dos meios a seu alcance: pressões de governo a governo; cláusulas nos empréstimos de organismos multilaterais de crédito; campanhas nos meios de comunicação social; lobbies com grupos internacionais de parlamentares; utilização de todas as repartições, agências e programas das Nações Unidas; planos de saúde primária ou materno-infantil; publicações com ar de científicas; subvenções a laboratórios e fábricas de contraceptivos; conivência de ginecologistas, psicólogos e ‘sexólogos’ etc. [...]”

Essa afirmação que soa a teoria da conspiração (é interessante para os promotores dessa agenda que assim soe) é verdade evidente e inquestionável, se tratando de um programa que há décadas vem sendo realizado de modo escuso, mas que tem trazido resultados impressionantes comprovados pelos fatos e pelos pronunciamentos dos estudiosos do assunto.

Um dos exemplos mais gritantes da aplicação prática desta nefasta agenda antinatalista é o programa Family Planning 2020 (Planejamento Familiar 2020 - FP 2020), que se apresenta como “um acordo global” proposto por ocasião do London Summit of Family Planning ocorrido em 2012 e que tem por objetivo facilitar o acesso de mulheres em países subdesenvolvidos aos métodos contraceptivos por meio de financiamento, do lobby político, de acordos governamentais, do fornecimentos de contraceptivos e de serviços de planejamento familiar.

O FP-2020 já conta com o comprometimento de mais de 50 (cinquenta) governos , cerca de 40 (quarenta) sociedades civis e organizações e 2 (duas) importantes fundações (Bill and Melinda Gates Foundation e United Nation Foundation), tendo como parceiros principais a Fundação Bill e Melinda Gates, o Departamento para Desenvolvimento Internacional Britânico (DFID), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).

(Países alvos do FP2020)

Imagem 1: Países alvos do FP-2020

O projeto já contou, desde seu início até agora, com um financiamento de cerca de 4 bilhões de dólares com o objetivo claro de fazer com que mais 120 milhões de mulheres [3] residentes em 69 (sessenta e nove) países subdesenvolvidos passem a ser usuárias de métodos contraceptivos modernos até o ano de 2020. Por mais escandaloso que seu projeto seja, toda a plataforma do FP 2020 é perfeitamente semelhante aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, parte da Agenda 2030 da ONU, que em seus objetivos 3 e 5 prevê:

 

“Objetivo 3 -Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades:

3.1 Até 2030, reduzir a taxa de mortalidade materna global para menos de 70 mortes por 100.000 nascidos vivos.

3.7 Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo o planejamento familiar, informação e educação, bem como a integração da saúde reprodutiva em estratégias e programas nacionais.

3.8 Atingir a cobertura universal de saúde, incluindo a proteção do risco financeiro, o acesso a serviços de saúde essenciais de qualidade e o acesso a medicamentos e vacinas essenciais seguros, eficazes, de qualidade e a preços acessíveis para todos.

Objetivo 5- Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas:

5.6 Assegurar o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos, como acordado em conformidade com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferências de revisão” [4].

 

Um recente artigo [5] da Bill and Melinda Gates Foundation publicado pelo jornal de medicina britânico The Lancet revelou os últimos dados referentes aos avanços do FP 2020. Dentre eles está o aumento de 28,8 milhões no número de mulheres casadas ou em uniões estáveis que usam métodos contraceptivos, sendo que o crescimento se deu de 23% para 28% na África. Além disso, dos 47 países cuja atuação da FP 2020 possui dados do período posterior a 2012, 44 tiveram aumento no número de mulheres casadas ou em uniões estáveis que utilizam métodos contraceptivos, sendo que entre 2012 e 2017 Moçambique e Quênia foram os que tiveram as maiores mudanças, com um aumento do uso de métodos contraceptivos de 15,7% em Moçambique e 12,7 % no Quênia somente nos últimos 5 anos. Os autores do supracitado artigo concluem que ainda há muito o que se fazer para se alcançar a meta audaciosa proposta pelo FP 2020, mas ressalta que, diante dos dados coletados, o avanço foi imenso [6].

Imagem 2: Melinda Gates discursando na London Summit on Family Planning 2012.

Não é recente a busca dos promotores do controle de crescimento populacional de difundir a contracepção a nível global, principalmente em países em desenvolvimento. Tampouco é a FP 2020 o único programa com tal objetivo.

Nesse sentido vale recordar o discurso de Robert McNamara, presidente do Banco Mundial entre 1968 e 1981, disponível no livro já citado de Jorge Scala, discurso esse que evidencia o quão antigos são os projetos para aumentar o número de usuários de métodos contraceptivos e reduzir as taxas de natalidade:

“...para alcançar os objetivos em matéria de prevalência da anticoncepção indicados no Quadro IV, o número de mulheres em famílias que utilizam métodos anticonceptivos deve aumentar em quase 60%, de 357 milhões em 1990 até 567 milhões no ano 2000. O aumento necessário de 210 milhões em um decênio pode-se comparar com o aumento real de 175 milhões nos 20 anos transcorridos de 1970 a 1990. Pareceria que aquele é um objetivo inalcançável. Não o é.”

Constata-se, porém, que os grandes difusores da mentalidade contraceptiva não estão interessados na opinião das sociedades dos países alvos sobre seus projetos. Isso é denunciado por alguns bispos de terras africanas que, diante do avanço dos projetos antinatalistas, se levantam para defender os valores de suas comunidades que são ameaçados pela agenda contraceptiva. Abaixo segue um trecho de um pronunciamento conjunto de bispos nigerianos sobre o assunto:

“A política tem sido feita em nome de promover uma melhor saúde materna e um maior empoderamento do nosso povo. Nós vemos essas ações como enganosas para nosso povo e nocivo aos valores morais e pedimos aos nigerianos que os rejeitem. Nossos jovens e nossas mulheres precisam de melhores fontes de energia, água potável, boas rodovias, melhor saúde e instituições educativas e não desses contraceptivos. Nosso país precisa rejeitar essas ofertas não rentáveis de incentivos anti-vida sobre a bandeira de ajuda externa para que nossa bela cultura não seja destruída” [7].

Um último relato, referente à aplicação abusiva das políticas antinatalistas na capital da Uganda, Kampala, deixa ainda mais clara a problemática em torno desse programa:

“Na mesma semana, em Kampala, em uma pequena porção de terra nas periferias de Bwaise, Babra Ainebyona, de 24 anos, disse que estava profundamente cética quanto à contracepção. Enquanto voluntárias da Marie Stops (ONG internacional que trabalha difundindo o aborto e a contracepção) [8] propagandeavam o controle reprodutivo gratuito que acontecia no outro lado do do bairro pobre, Ainebyona assistia com receio da barraca onde vendia banana. Ela já havia experimentado a “dose de planejamento familiar” antes, disse ela, e os efeitos colaterais foram intoleráveis, durante cerca de 3 meses. A clínica onde ela recebeu a dose, disse ela, nunca informou acerca dos efeitos colaterais, e quando posteriormente disseram a ela que o planejamento familiar poderia causar defeitos congênitos ela acreditou. “Agora eu odeio”, disse ela, “e nunca usarei novamente” [9].

Relatos como estes se multiplicam, evidenciando que toda essa agenda que alardeia defender os direitos das mulheres de “escolherem” não está preocupada com o bem-estar, com a saúde ou com a vida dessas mesmas mulheres. Seu intento é, apenas, implementar globalmente seu projeto mórbido de mundo, passando por cima da liberdade e da consciência humana.

O que a Igreja pensa sobre tudo isso?

Em seus ensinamentos sociais os Sumos Pontífices mais recentes nos alertaram várias vezes sobre o perigo da difusão da contracepção a nível global sob a falsa justificativa de se defender a liberdade individual e de se impedir o crescimento exagerado da população mundial.

O Papa São João XXIII, em sua encíclica Pacem in Terris (11 de abril de 1963) diz que:

“No plano mundial, observam alguns que, segundo cálculos estatísticos considerados sérios, a família humana, dentro de poucos decênios, chegará a números muito elevados, ao passo que o desenvolvimento econômico prosseguirá com ritmo menos acelerado. Daqui concluem que a desproporção entre o povoamento e os meios de subsistência, num futuro não longínquo, se fará sentir de maneira aguda, se não se tratar devidamente de limitar o aumento demográfico. A verdade é que, situado o problema no plano mundial, não parece que a relação entre o incremento demográfico, por um lado, e o desenvolvimento econômico e a disponibilidade dos meios de subsistência, por outro, venham a criar dificuldades ao menos por agora ou num futuro próximo. De todos os modos, são demasiado incertos e oscilantes os elementos de que dispomos para podermos chegar a conclusões seguras. Todavia, mesmo em tais casos, devemos afirmar claramente desde já que estes problemas não se podem encarar, nem estas dificuldades se podem vencer, recorrendo a métodos e meios que são indignos de um ser racional e só encontram explicação num conceito puramente materialista do homem e da vida.”

O Papa Beato Paulo VI, abordando as consequencias dos métodos de regulação artificial da natalidade, reforça a posição de seu antecessor na encíclica Humanae Vitae (25 de julho de 1968):

“Pense-se ainda seriamente na arma perigosa que se viria a pôr nas mãos de autoridades públicas, pouco preocupadas com exigências morais. Quem poderia reprovar a um governo o fato de ele aplicar à solução dos problemas da coletividade aquilo que viesse a ser reconhecido como lícito aos cônjuges para a solução de um problema familiar? Quem impediria os governantes de favorecerem e até mesmo de imporem às suas populações, se o julgassem necessário, o método de contracepção que eles reputassem mais eficaz? Deste modo, os homens, querendo evitar dificuldades individuais, familiares, ou sociais, que se verificam na observância da lei divina, acabariam por deixar à mercê da intervenção das autoridades públicas o setor mais pessoal e mais reservado da intimidade conjugal.”

E o Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si’ (18 de junho de 2015) arremata que:

“Em vez de resolver os problemas dos pobres e pensar num mundo diferente, alguns limitam-se a propor uma redução da natalidade. Não faltam pressões internacionais sobre os países em vias de desenvolvimento, que condicionam as ajudas económicas a determinadas políticas de ‘saúde reprodutiva’. Mas, se é verdade que a desigual distribuição da população e dos recursos disponíveis cria obstáculos ao desenvolvimento e ao uso sustentável do ambiente, deve-se reconhecer que o crescimento demográfico é plenamente compatível com um desenvolvimento integral e solidário.”

Assim, seguindo os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja não podemos ficar inertes diante da necessidade de propor e realizar ações que respeitem a dignidade humana violada por esta agenda que visa destruir a centralidade humana e a família, que não passa de uma tirania disfarçada de filantropia e que conduz a humanidade a situações de desrespeitos e abusos.

“A solução acertada encontra-se, segundo São João XXIII, apenas num progresso econômico e social que respeite e fomente os genuínos valores humanos, individuais e sociais, em conformidade com a moral, com a dignidade e o imenso valor da vida humana, e, juntamente, numa colaboração em escala mundial que permita e fomente a circulação ordenada e fecunda de conhecimentos úteis, de capitais e pessoas.”

São João XXIII visitando uma criança doente.

Thiago Martins

[2] São João XXIII, Mater et Magistra.

[6] Além do artigo citado, os próprios promotores do PF 2020 se gloriam em divulgar os avanços do projeto de contracepção. Mais dados recentes do pacto global podem ser constatados no link: <http://www.familyplanning2020.org/articles/21700>. Acesso 13 dez. 2017.

[8] Sobre a ONG Mary Stops: <https://www.mariestopes.org/>. Acesso em 13 dez. 2017.

[9] Disponível em: < https://psmag.com/magazine/new-war-on-birth-control>. Acesso em 13

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