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Ação Laical: Os Círculos Católicos Operários

Doutrina Social da Igreja antes da Rerum Novarum

· DSI histórico

Poucos conhecem a história heróica que antecedeu a primeira encíclica social da Igreja, assim como das inspirações motivadoras sobre as quais a Rerum Novarum se orientou.

Nós, do Instituto São Pedro de Alcântara, publicaremos uma série de artigos sobre a DSI antes da Rerum Novarum, com o objetivo de tornar conhecido o trabalho e a vida dos pensadores e grupos que, antes de 1891, atuaram com o intuito de cristianizar a ordem social vigente.

Nesse artigo vamos explorar a ação de dois franceses do século XIX: o Conde René de La Tour du Pin (1834-1924) e o Conde Albert de Mun (1841-1914). Esses dois nobres franceses, católicos fiéis, se depararam inconformados com os males causados pelo liberalismo capitalista na vida dos operários e, na expectativa de mudar essa situação à luz da fé cristã, fundaram em 1871 os Círculos Católicos de Operários.  

A ação dos dois condes foi influenciada pelo contexto em que viveram, contexto este de constante embate entre as duas orientações político-socio-econômicas que se degladiavam na época - o liberalismo capitalista e o marxismo:

  1. Liberalismo: Durante décadas, desde a Revolução Francesa, a situação dos trabalhadores franceses foi de quase total descaso e abandono por parte das esferas estatais mais elevadas. Apesar da Restauração Monárquica de 1815 e do advento dos dois Impérios (1804-1815; 1852-1870) as antigas premissas liberais continuavam a organizar a economia francesa. O Decreto de Allarde, que proibia as associações de livre ofício entre trabalhadores de mesma ocupação e a Lei de Le Chapelier que proibia sindicatos, greves e qualquer associação entre cidadãos, justificando-se na defesa das livres empresas, continuavam a reger as relações de trabalho. A Lei de Le Chapelier só veio a ser revogada em 1864, o que não garantiu que os operários franceses deixassem de ficar submetidos aos excessos liberais.
  2. Marxismo: A má condição de vida abriu brechas para a disseminação do pensamento marxista revolucionário nas classes mais baixas provocando a chamada Comuna de Paris de 1871, a única (e êfemera) experiência de um governo revolucionário organizado e regido por trabalhadores na história francesa. Na Comuna idealizava-se que os trabalhadores controlariam a sociedade, a vida e o trabalho a partir de um Comitê Central, do qual nada escaparia. Essa tentativa ineficaz sossobrou diante das forças prussianas que invadiam a França na época, diante dos próprios franceses insatisfeitos com o governo autoritário da Comuna e da desorganização dela própria.

Fotografia da Comuna de Paris

Para evitar outra experiência como a Comuna de Paris, os dois condes propuseram uma renovação cristã da ordem social partindo do pressuposto de que a Revolução destruíra os direitos que protegiam os trabalhadores no Antigo Regime e que organizavam a ordem econômica. Viam a necessidade de empreender uma reforma e se esforçaram para tal.

Nessa intenção fundaram em 1871 a obra dos Círculos Católicos de Operários, no qual se unia pacificamente o patronato e seus empregados. Os círculos eram verdadeiros locais para o bem-estar dos trabalhadores, contavam com espaços para relaxar, tomar refeições, ler, ouvir palestras, além de contar com uma capela para a prática religiosa.

Contudo, a intenção dos condes não ficava restrita à criação de locais acolhedores para os trabalhadores, mas visava também a formação de uma elite de trabalhadores católicos que se orientaria pelos princípios do Catolicismo Social e pela difusão do ideal corporativista dos sistemas econômicos. 

Os Círculos também contavam com confrarias para a formação religiosa das famílias operárias, tanto para as crianças (Associação dos Santos Anjos), quanto para os pais (Associação dos Filhos de Maria e a Sociedade de São José). Havia ainda mecanismos propriamente sociais de socorros mútuos, de cooperativas de compra, dispensários médicos, caixas de poupança, companhia de bombeiros, mutualidade escolar e de dotes. 

Foi uma verdadeira ação do Catolicismo Social patrocinada, não por clérigos, mas por leigos. E, em 1878, na França, já haviam um total de 375 Círculos locais reunindo 38.000 trabalhadores e 8.000 notáveis e, somente 6 anos depois o número já aumentara para 400 Círculos reunindo 50.000 membros!

A ideia dos condes, todavia, não foi absolutamente original, pois se inspirou no decisivo trabalho de Maurice Maignem, um lazarista, membro da Congregação da Missão (Irmãos de São Vicente de Paulo) que fundou em 1855 a Association des Jeuves Ouvriers que, dez anos depois, tornou-se o “Círculo de Jovens Trabalhadores”, que funcionava no Bairro Montparnasse (em Paris) e que visava proteger jovens operários franceses. A sua influência sobre os Círculos Operários Católicos foi evidente, tanto que os dois grupos acabaram por se fundir em 1871.

E o Papa Leão XIII, quando publicou a Rerum Novarum sintetizou, em seu §29, o que os dois condes principiaram ao fundar os Círculos Operários Católicos: 

"Em último lugar, diremos que os próprios patrões e operários podem singularmente auxiliar a solução, por meio de todas as obras capazes de aliviar eficazmente a indigência e de operar uma aproximação entre as duas classes. Pertencem a este número as associações de socorros mútuos; as diversas instituições, devidas à iniciativa particular, que têm por fim socorrer os operários, bem como as suas viúvas e órfãos, em caso de morte, de acidentes ou de enfermidades; os patronatos que exercem uma proteção benéfica para com as crianças dos dois sexos, os adolescentes e os homens feitos. Mas o primeiro lugar pertence às corporações operárias, que abrangem quase todas as outras. Os nossos antepassados experimentaram por muito tempo a benéfica influência destas associações."

A ação laical, portanto, já havia lançado as bases para o catolicismo social antes mesmo da posição oficial da Igreja.

E agora cabe aos leigos de hoje continuar essa heróica história.

Referências Bibliográficas

Diego de Farias

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