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A Missão Espiritual da França

No meio das trevas a cruz brilhará, no meio dos escombros a cruz permanecerá de pé!

A França exerceu ao longo da história não apenas do mundo, mas inclusive na história da Igreja, um impacto incomparável. Dela saíram alguns dos maiores santos e alguns dos maiores inimigos da Igreja. De fato a nação francesa, enquanto realidade histórica e espiritual, teve ao longo dos últimos mil e seiscentos anos uma importância que é difícil de compreender e aglutinar. Aos olhos de Deus, a França, não sabemos o porquê, possui uma acuidade permanente, uma certa predileção ditosa, um interesse muito particular em relação às demais nações cristãs.

A história da França confunde-se com a história da Igreja. Não houve momento algum da história católica, seja em momentos de glória ou de cruz, em que a França não estivesse particularmente envolvida. Da França saíram alguns dos maiores santos da história e alguns dos maiores inimigos da Igreja... em determinados momentos o Estado Francês foi o maior aliado da Igreja, em outros seu maior adversário. E é notável constatar que nessas ocasiões em que, política ou ideologicamente, a França capitaneava a oposição à fé católica, dentro dela mesma germinavam as forças espirituais que armariam a Igreja contra os inimigos da Cruz.

A aliança selada desde cedo entre a Igreja e o rei Clóvis, primeiro rei do que mais tarde seria a França, a conversão sincera deste piedoso monarca bárbaro e a sua unção e de seus sucessores com um óleo que as lendas diziam ter sido trazido pelo Espírito Santo em 496, foram decisivos. O batismo de Clóvis e de 3 mil de seus cavaleiros de uma só vez foi o batismo da própria França, o seu nascimento tanto temporal quanto espiritual. Desde então chamada de “filha mais velha e predileta da Igreja”, a França esteve em uma especialíssima unidade espiritual com sua mãe, a Igreja Católica. Ao longo dos tempos bárbaros e do auge da Cristandade a França desempenhou esse papel de sustentáculo da Igreja. Teve papel imprescindível na Reforma Católica e, no século XVII, foi palco de uma incrível renovação espiritual e de verdadeira santidade no que se convencionou chamar de “Escola Francesa de Espiritualidade”. Cluny, a Cartuxa e Cister vieram da França. O juramento sagrado de Santo Inácio de Loyola e seus companheiros foi feito na colina sagrada de Montmartre, em Paris, onde um dia jorrara o sangue do santo mártir São Dionísio. Missões para todos os cantos do mundo, uma verdadeira epopeia missionária financiada por franceses generosos e levada a cabo por missionários santos, levaram a palavra de Deus do Canadá à Polinésia. Foi a França, sempre a França, que esteve lá a frente, com a cruz erguida. São Dionísio e Santo Hilário, Santo Irineu e Santa Blandina, Santa Clotilde e Santa Genoveva, São Bernardo e Santa Joana d’Arc, São Francisco de Sales e São Vicente de Paulo, Santa Joana de Chantal e Santa Luísa de Marillac, São Luís de Montfort e São Bento Labré, São João Eudes e São João Batista de La Salle, Santa Margarida Maria e Santa Elizabeth da Trindade, Santa Catarina Labouré e Santa Bernadete, São João Maria Vianney e Santa Teresinha... Cardeal de Bérulle e Monsieur Olier, Madre Javouhey e Charles de Foucauld... Que seria da Igreja Católica sem o povo de São Luís?

A própria monarquia francesa, apesar dos pecados de muitos de seus belicosos monarcas, esteve sempre muito associada à Igreja. Nascendo sob a unção de um santo, convertida por milagre em Tolbiac e sempre mantendo a fé, a linha real da França, esta sucessão ininterrupta de reis católicos deu mil e uma provas de verdadeira fé católica. Particularmente ligados à Nossa Senhora, os reis da França tornaram as flores-de-lis, símbolo da Virgem Maria, o próprio brasão da França.

Com o rei Luís XIII, essa ligação da monarquia à Nossa Senhora seria estendida ao próprio reino. Esse rei, casado há muitos anos com a rainha Ana de Áustria, aproximava-se da maturidade sem filhos, com saúde muito debilitada e em uma difícil guerra contra os calvinistas entrincheirados em La Rochelle, cidade marítima no Charente. Luís XIII recorreu então à Nossa Senhora, fazendo-lhe um voto de construir uma igreja se ela intercedesse por ele. Assim foi feito e em 1628 os calvinistas se renderam. Cumprindo a promessa, Luís XIII construiu a Igreja de Nossa Senhora das Vitórias em Paris. Em 1630 foi ainda curado de uma grave disenteria, mas o herdeiro por nada vinha. Ao longo de quase dez anos, Luís XIII alterou seu voto à Nossa Senhora, fazendo em 1637 uma promessa ainda maior. Naquele mesmo ano, um religioso agostiniano teve uma visão da Virgem Maria segurando em seus braços o herdeiro do trono que, disse ela, Deus queria dar à França. No ano seguinte, depois de quase 22 anos de casamento, Ana da Áustria deu à luz a Luís Dieudonné (“dado por Deus”), que viria a ser Luís XIV, o Rei Sol. Para marcar a consagração de seu reino à Nossa Senhora, Luís XIII prometeu construir um novo altar-mor para a catedral de Paris, com uma imagem da Virgem com o Crucificado descido da cruz em seus braços, e com o próprio Luís XIII representado ao pé deles, oferecendo-lhes sua coroa e seu cetro. O rei, porém, morreu antes de poder realizar a promessa e, ao final do seu longo reinado de mais de setenta anos, Luís XIV cumpriu o voto do pai, mandando refazer o altar de Notre-Dame e esculpir as estátuas tanto de Nossa Senhora com o Senhor Morto e de Luís XIII entregando-lhes a França.

Escrevo essas palavras no exato momento em que chamas ardem na nave de Notre-Dame de Paris, aquela lendária igreja que é símbolo da fé católica no reino de São Luís, igreja-mãe de toda a França, santuário de Nossa Senhora. Se é nossa tendência, como cristãos, maldizer a França apóstata, culpá-la pelo mal que causou ao Ocidente após sua trágica revolução, nosso coração deve se acalmar ante as promessas e palavras do próprio Cristo em suas aparições à Santa Margarida Maria Alacoque no final do século XVII.

O Sagrado Coração de Jesus em sua revelação universal à humanidade, confiou à França e ao seu rei, ninguém menos que o próprio Luís XIV, o Dieudonné, a tarefa de “cumprir uma grande e bela missão”. Chamando o rei da França de “filho primogênito de meu Sagrado Coração”, Jesus pediu que fosse levada a ele a mensagem revelada por intermédio de Santa Margarida. A mensagem não era apenas a Luís XIV, mas à nação francesa simbolizada por seu rei:

Dize ao filho primogênito do meu Sagrado Coração que o Pai Eterno, querendo reparar as amarguras e agonias que o adorável Coração de seu divino Filho sofreu na casa dos príncipes da terra, no meio das humilhações e dos ultrajes da sua Paixão, escolheu o vosso grande monarca, como seu amigo fiel, para a execução de um grande desígnio (...) Em primeiro lugar, quer estabelecer o seu império no coração do rei, pela consagração que este fará de si mesmo a este divino Coração, que deseja triunfar do seu (...) O Sagrado Coração quer, por seu intermédio, triunfar dos corações dos grandes da terra.”[1]

A mensagem era clara: através da França, queria o Sagrado Coração de Jesus reinar no mundo inteiro. Infelizmente, porém, Luís XIV e seu sucessor Luís XV foram insensíveis aos pedidos divinos. A devoção ao Sagrado Coração, porém, principiou no final do século XVII ainda, a manifestar-se no palácio real: a esposa de Luís XIV, rainha Maria Teresa, se inscreveu em uma confraria do Sagrado Coração. O filho e herdeiro de Luís XV, o Delfim Luís, com sua piedosa mãe rainha Maria Lesczinska, fez construir em Versalhes uma capela consagrada ao Sagrado Coração. Sob Luís XVI novas tentativas a respeito de uma consagração nacional ao Sagrado Coração se fizeram. O católico rei estava disposto a fazê-lo, mas os eventos da revolução retardaram o cumprimento do pedido. Aprisionado pelos revolucionários em 1792, Luís XVI arrependeu-se pela demora e jurou que “prometo erigir e ornar à minha custa uma capela dedicada ao Sagrado Coração, e pronunciar o ato solene da consagração do meu reino ao Sagrado Coração"[2] Era tarde. Os acontecimentos se precipitaram e o rei foi guilhotinado no ano seguinte. Quando da Restauração em 1815, novos pedidos foram feitos ao rei Luís XVIII para que ele realizasse a consagração e ele prometeu fazê-lo, mas nunca cumpria a promessa. Jesus então apareceu à Irmã Maria de Jesus, religiosa de Notre-Dame de Paris, em 21 de junho de 1823 e lhe dirigiu as seguintes palavras:

A França é sempre muito querida do meu divino Coração. Disponho todas as coisas para que ela lhe seja consagrada; depois de o fazer, reservo-lhe um dilúvio de graças e toda a terra sentirá o efeito dessas bênçãos, que eu derramar sobre ela. A fé e a devoção hão de tornar a florescer na França por meio da benção do meu divino Coração.[3]

Dever-se-iam esperar mais cinquenta anos quando, após tragédias sucessivas, a França por fim decidisse consagrar-se. Em 18 de janeiro de 1872, no topo da colina de Montmartre de Paris foi feito o voto nacional de consagração ao Sagrado Coração, com a promessa de se construir, naquele local, um santuário dedicado a ele. Assim, escolhido como local do templo aquela montanha santa regada com o sangue dos mártires do século III, com o apoio incondicional do Papa Pio IX, foi erguida no topo de Paris a monumental Basílica de Sacre-Couer, a Igreja do Sagrado Coração, em cuja fachada leem-se em letras de ouro a seguinte divisa: “Sacratissimo Cordi Jesu Christ Gallia paenitens et devota!” – Ao Sagrado Coração de Jesus, a França penitente e devota![4] Duzentos anos antes Santa Margarida tivera uma visão daquele local sagrado que hoje domina o horizonte de Paris:

Foi-me representado um lugar muito elevado, espaçoso e admirável pela sua beleza. No centro via-se um trono em chamas. Sobre esse trono estava o Coração adorável de Jesus com a chaga, da qual saíam raios tão ardentes e luminosos, que iluminavam todo aquele lugar.[5]

Quando apareceu a Santa Margarida, Jesus pediu que em todas as representações de seu Sagrado Coração fosse retratada a Coroa de Espinhos envolvendo-o e penetrando-o tais como os pecados do mundo inteiro. Essa mesma Coroa de Espinhos, da qual São Luís tornou a França guardiã, esteve há pouco a ponto de ser perdida pelas chamas da indiferença luciferina dos franceses que abandonaram a fé de seus pais. Pelo heroísmo de valorosos bombeiros, a Coroa de Espinhos, que há quase oitocentos anos São Luís trouxera de Constantinopla e para a qual construíra a Sainte-Chapelle, foi salva das chamas! Que grito de esperança! O grande símbolo da promessa do Coração de Jesus à França, um dos maiores sinais visíveis do amor do Coração de Jesus pela humanidade sobreviveu às chamas! Talvez seja esse um sinal da realização da profecia do visionário Papa São Pio X em 1911:

Um dia virá - espero que não seja tão longe - no qual a França, como Saulo no caminho de Damasco, cairá rodeada por luz celestial e escutará uma voz: “Por quê me persegues? Levanta-te, limpa as tuas manchas, reaviva teus sentimentos e vai-te outra vez, como filha primogênita da Igreja, levar o meu Nome a todos os povos e a todos os reis da terra!”[6]

No ateu século XIX, em Paris, Lourdes, La Salette, através de sua Santíssima Mãe, Jesus enviou mensagens à humanidade endereçadas especialmente à França. A missão deste país, por certo, não terminou. Como profetizou São Pio X, a católica França, a França de Clóvis e Carlos Magno, a França de São Luís voltará ao redil da Igreja. Lembremo-nos do exemplo de Padre Jacques Hamel que em 2016, enquanto celebrava missa em sua paróquia na Normandia, foi brutalmente martirizado por invasores muçulmanos. Suas últimas palavras teriam sido: “Satanás, saia!” Repitamos as últimas palavras desse santo mártir, clamando que São Miguel Arcanjo, do topo de seu Monte Saint-Michel, use sua espada flamejante para expulsar o espírito maligno da filha mais velha da Igreja.

São Luís, o maior dos reis da França, não tenhamos dúvidas, patrono e defensor do seu povo no céu, continua a zelar por seu país. “Que fizeram do meu reino?” bem poderia ele perguntar. Mas ele não lamenta, está diante de Deus suplicando para que a nação que tão amorosamente governou há tantos séculos recupere sua própria vocação e sua razão de existir.

Confiemos nós em Deus, na intercessão de Nossa Senhora de Paris, na proteção do Sagrado Coração de Jesus e nas súplicas de São Luís. Assim unamos nossas orações às súplicas dos anjos e santos do céu, assim como às orações dos católicos franceses para que a França, batizada sob Clóvis, entregue a Nossa Senhora sob Luís XIII, consagrada ao Sagrado Coração de Jesus no topo de Montmartre e santificada pelos méritos de seu maior filho e rei São Luís, volte ao redil da Igreja:

França, volta pressurosa aos braços da tua Mãe, a Santa Igreja, que jamais te agrediu, nem matou teus filhos. Renova teu batismo nas águas de Lourdes, consagra-te de novo, ao Sagrado Coração, ao Amor dos amores. Reúne-te ainda sob a bandeira de La Pucelle d’Orleans, Santa Joana d’Arc, guerreia!, brada!, corre! E se cumprirá sobre ti a profecia de São Pio X, e ressurgirás, França! Esquece teu liberalismo, e lança para longe o jogo dos teus inimigos que crescem à sombra do teu laicismo. Lembra-te de onde caíste, arrepende-te, e serás de novo erguida como glória das nações, a predileta entre as filhas!

Não tenhamos dúvidas: antes do final da história e como tantas vezes ao longo dos séculos, a França terá mais uma vez um papel imprescindível ao lado de sua mãe, a Igreja Católica, contra as forças da perdição.

[1] Santa Margarida Maria. O Coração de Jesus, p. 119-120

[2] Ibid, p. 130.

[3] Ibid, p. 131.

[4] Ibid, p. 136.

[5] Ibid, p. 139.

[6] Alocução consistorial Vi ringrazio de 29 de novembro de 1911, Acta Apostolicae Sedis, Typis Polyglottis Vaticanis, Roma, 1911, p. 657

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