Return to site

A Igreja e o Mundo Moderno, segundo Bento XVI

O ISPA apresenta traduzida uma entrevista do então Cardeal Ratzinger sobre os rumos que a humanidade tem tomado no século XXI

· DSI e Sociedade

Em três diferentes ocasiões, o diretor de Humanitas, Jaime Antúnez Aldunate, entrevistou em Roma o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI. Essas entrevistas, publicadas sucessivamente no jornal El Mercurio, de Santiago do Chile, foram logo reeditadas pelo seu autor, como um texto único, no livro "Crónica de las Ideas:En busca del rumbo perdido" [Crônica das Ideias: Em busca do rumo perdido, sem tradução para o português], publicado em Madrid por Ediciones Encuentro (2001).

A entrevista, no original castelhano pode ser encontrado no site da Humanitas e, agora, o ISPA oferece uma inédita versão traduzida para o português.

--ANTÚNEZ: O Catecismo da Igreja Católica, apresentado por Vossa Eminência no final de 1992, foi um sucesso universal nas livrarias, liderando as vendas num grande número de países. Na opinião de V.E., isso tem alguma relação com a queda das ideologias?

--RATZINGER: Seguramente existe uma relação, porque a questão de onde devemos nos apoiar na constante mudança dos tempos ganhou mais pressão ainda devido à queda das ideologias. Se temos que ser realistas, devemos admitir que o êxito do livro tem muitas raízes. Em parte, não é mais que pura curiosidade que anima muita gente a comprá-lo. Depois de todas as críticas que escutaram antes, querem saber o que é que esse livro realmente diz. Outros buscam informação e querem conhecer os ensinamentos da Igreja Católica que, agora como sempre, representa uma grande força espiritual na humanidade. Muitos fiéis que, depois dos anos agitados que se seguiram ao Concílio, e diante dos antagonismos desconcertantes entre os teólogos, já não sabem muito bem a que se devem ater na Igreja, esperavam que esse livro esclarecesse suas dúvidas, e, com efeito, esta é uma das funções essenciais do livro: Nas últimas três décadas, as opiniões e comentários dentro da Igreja foram tantos e tão contraditórios, que produziram profunda confusão e incerteza em muitas pessoas. Agora a Igreja mudou subitamente seus antigos ensinamentos? Tudo que sempre foi válido, de repente não é mais? A Igreja ainda tem uma doutrina comum? O Catecismo nos diz que sim, tem uma doutrina comum, porque a palavra de Deus é inesgotável, e graças a ela cresce a fé. Aparecem novas dimensões da palavra revelada. E mesmo quando acabar o céu e a terra, as palavras de Jesus não perecerão, como bem nos diz o salmo 102: "No começo criastes a terra, e o céu é obra de vossas mãos. Um e outro passarão, enquanto vós ficareis. Tudo se acaba pelo uso como um traje. Como uma veste, vós os substituís e eles hão de sumir. Mas vós permaneceis o mesmo [...]". Como uma veste, vós os substituís: vivemos de forma dramática as mudanças da história nessas décadas. Mas a fé vem daquele Deus que sempre permanece o mesmo, ainda quando se mudam as vestes da palavra, isto é, as formas históricas de expressão da fé. Essa busca do permanente constitui seguramente um dos motivos da demanda pelo Catecismo. No entanto, me parece que, em último termo, é mais importante a causa positiva do que as causas negativas que desempenham um papel no êxito do livro (decomposição das ideologias, etc.): o homem busca a verdade, busca aquilo que lhe permite viver. Apesar de todas as dúvidas diante da Igreja Católica, e de toda a crítica que se expressa contra ela, existe uma expectativa: talvez eu possa encontrar ali uma palavra que me ajude...

--ANTÚNEZ: Pela leitura de diversos documentos do Magistério, poderia se deduzir que, do ponto de vista pastoral, uma das preocupações principais da Igreja com relação ao homem contemporâneo é o ateísmo. Trata-se hoje mais de um ateísmo prático que ideológico?

--RATZINGER: A raiz de todos os problemas pastorais é, sem dúvida, a perda da capacidade de percepção da verdade, que caminha lado a lado com cegueira ante a realidade de Deus. E é digno notar como interagem aqui o orgulho e a falsa humildade. Primeiro é o orgulho que motiva o homem a imitar Deus, a se crer capaz de entender os problemas do mundo e construí-lo de novo. Na mesma medida surge a falsa modéstia, que sustenta a ideia de que é absolutamente impossível que Deus se preocupe com os homens e que chegue a falar com eles. O ser humano já não se atreve a aceitar que é capaz de reconhecer por si mesmo a verdade, isso lhe parece presunção. Pensa que deve se conformar com ter acesso à ação. Neste mesmo instante, também emudece para ele a Sagrada Escritura: agora ela não nos diz o que é verdade, mas sim apenas nos informa o que tempos e homens pretéritos pensavam que era verdadeiro. Com isso muda também a imagem da Igreja: ela deixa de ser transparência do Eterno, para passar a ser apenas uma espécie de liga em favor da moral e da melhoria das coisas terrenas. A medida de seu valor estaria em seu êxito terreno. Se infiltram aqui necessariamente o ateísmo prático e o ideológico, junto a uma certa conveniência. Primeiro apenas se procede como se Deus não existisse, mas logo é preciso justificar essa posição explicando a primazia da práxis. Daqui até a ideologia é só um curto caminho.

--ANTÚNEZ: O papa João Paulo II insistiu várias vezes na validade dessa advertência de Pio XII: "O grande pecado do mundo contemporâneo é ter perdido a noção de pecado". Com efeito, parece que o sentido da liberdade, tão aguçado no homem contemporâneo, compele este a conhecer e provar tudo, indiscriminadamente. À luz disso, o que poderia ser comentado desse pensamento de Simone Weil: "Só fazemos a experiência do bem quando o praticamos. Quando fazemos o mal, não o conhecemos, porque o mal detesta a luz"?

--RATZINGER: Penso que essa palavra de Simone Weil é fundamental. O bem e a verdade são inseparáveis entre si. É um fato que só fazemos o bem quando estamos em harmonia com a lógica interna da realidade e do nosso próprio ser. Agimos bem quando o sentido da nossa ação é congruente com o sentido do nosso ser, isto é, quando encontramos a verdade e a realizamos. Em consequência, fazer o bem conduz necessariamente ao conhecimento da verdade. Quem não faz o bem, cega-se também para a verdade. Inversamente, o mal é gerado pelo enfrentamento do meu eu com a exigência do ser, da realidade; isto é, pelo abandono da verdade. É por isso que fazer o mal não conduz ao conhecimento, mas à ofuscação. Já não posso - nem quero - ver o que é mau; o sentido do bem e do mal fica embotado. Por isso o Senhor diz que o Espírito Santo admoestará o mundo quanto ao pecado (Jo 16, 8): na sua qualidade de Espírito de Deus, deixa claro o que é o pecado; somente Ele, que é todo luz, pode reconhecer o que o pecado significa e conduzir assim os homens à verdade. Falando disto mesmo, São Paulo diz: O homem espiritual - aquele que vive no Espírito Santo - tudo compreende (1 Cor 2, 15). A comunhão com o bem, com o Espírito Santo, é a mais profunda de todas as experiências possíveis e, em consequência, proporciona-nos a pauta para uma compreensão que chega ao núcleo da realidade.

--ANTÚNEZ: Como se conjugam, nesta perspectiva, as exigências de uma vida interior e espiritual, com as de uma missão pública e profética?

--RATZINGER: Tenho a impressão de que hoje existe um grande mal-entendido em torno da categoria do profético. O profeta é entendido como um grande acusador, que se coloca junto aos "mestres da suspeita" e percebe o negativo em todo lugar. Isso é tão falso como aquela opinião que prevalecia antigamente, que confundia o profeta com o adivinho.

O profeta é na verdade o homem espiritual, no sentido que São Paulo dá a esta expressão; isto é, é aquele que está totalmente penetrado do Espírito de Deus e que por esse motivo é capaz de ver retamente e de julgar em consequência. Sua missão é, portanto, fazer a obra do Espírito Santo, e isso significa convencer o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo (Jo 16,8). Posto que a luz de Deus vê tudo, possui uma percepção inexorável no que diz respeito ao pecado; ele deve deixar a descoberto a hipocrisia e a mentira ocultas nas coisas humanas, para deixar limpo o caminho até a verdade. 

Convencer ao mundo do pecado é desde logo algo inteiramente distinto de uma crítica social fundamentada no puramente sociológico ou guiada por interesses de tipo político. Significa julgar os homens e as circunstâncias a partir de sua relação para com Deus; introduzir na comunicação o juízo de Deus como fator decisivo e deixar tudo ao juízo de Deus. Por isso, a linguagem profética é religiosa em grau máximo, é linguagem "espiritual". Por isso, a linguagem profética sempre aplica também a medida do positivo: a justiça "porque vou para o Pai" e o juízo de Deus. Precisamente por esta razão, a linguagem profética é sempre portadora de esperança. Falar de maneira profética significa, em síntese, interpretar a situação a partir do ponto de vista de Deus, reconhecer a vontade de Deus retamente em uma situação determinada e proclamá-la.

Decidir se estamos chamados a falar de maneira profética e em quais circunstâncias demanda uma introspecção muito séria, pois ninguém pode erigir-se em profeta por conta própria.

--ANTÚNEZ: Segundo destacou Alexander Solzhenitsyn, a morte do comunismo, a verificação de que era uma mentira, trouxe a muitos setores pensantes a impressão de que não existem verdades absolutas e de que tampouco interessa encontrá-las. Entretanto, se pergunta o mesmo Solzhenitsyn, e eu aqui me permito passar essa pergunta a Vossa Eminência, o que se pode construir sobre o menosprezo dos significados mais elevados e sobre uma visão relativista dos conceitos e da cultura em sua totalidade?

--RATZINGER: A Encíclica "Veritatis Splendor" parte de uma análise que está muito próxima da de Solzhenitsyn. Possivelmente, o flerte da "intelligentsia" ocidental com o marxismo tenha sua explicação no fato de que, no meio do turbilhão do relativismo, procuraram algo sólido e acreditaram que o encontrariam ali. Depois que as profecias do marxismo demonstraram ser mentiras, a tentação do relativismo se tornou ainda mais radical.

--ANTÚNEZ: No marco universal que o regime democrático alcançou hoje, também se generaliza um tipo de relativismo que tende a questionar tudo em matéria de princípios.

--RATZINGER: Muitos opinam que o relativismo constitui um princípio básico da democracia, porque seria parte dela que tudo possa ser submetido a discussão. Na verdade, no entanto, a democracia vive sobre a base de que existem verdades e valores sagrados que são respeitados por todos. De outro modo ela se afunda na anarquia e se neutraliza a si mesma.

Alexis de Tocqueville já assinalava, há aproximadamente 150 anos, que a democracia só pode subsistir se antes ela é precedida por um determinado "ethos". Os mecanismos democráticos só funcionam se este ethos é, por assim dizer, óbvio e indiscutível, e só assim tais mecanismos se convertem em instrumentos de justiça. O princípio da maioria só é tolerável se essa maioria também não tem a escolha de fazer tudo à sua vontade, pois tanto a maioria como a minoria devem se unir no respeito comum a uma justiça que obriga a ambas. Conseqüentemente, há elementos fundamentais prévios à existência do Estado que não estão sujeitos ao jogo de maioria e minoria e que devem ser invioláveis para todos.

A questão é: quem define tais "valores fundamentais"? E quem os protege? Esse problema, tal como Tocqueville assinalou, não surgiu na primeira democracia americana como problema constitucional, porque existia um certo consenso cristão básico - protestante - absolutamente indiscutível e que era considerado óbvio. Este princípio se nutria da convicção comum dos cidadãos, convicção que estava fora de toda polêmica. Mas o que acontece se já não existem tais convicções? Será possível declarar, por decisão da maioria, que algo que até ontem se considerava injusto agora é de direito e vice-versa? Orígenes expressou quanto a isso no século III: Se no país dos citas a injustiça é transformada em lei, então os cristãos que ali vivem devem agir contra a lei. Fica fácil traduzir isso para o século XX: Quando durante o governo do nacional-socialismo se declarou que a injustiça era lei, enquanto durasse tal estado de coisas um cristão estava obrigado a agir contra a lei. "Deve-se obedecer a Deus antes que aos homens". Mas como incorporar esse fator ao conceito de democracia?

Em todo caso, está claro que uma constituição democrática deve cautelar, em qualidade de fundamento, os valores provenientes da fé cristã, declarando-os invioláveis, precisamente em nome da liberdade. Uma tal custódia do direito só subsistirá, por certo, se estiver guardada pela convicção de grande número de cidadãos. Esta é a razão pela qual é de suprema importância para a preparação e conservação da democracia preservar e aprofundar aquelas convicções morais fundamentais, sem as quais ela não poderá subsistir. Estamos diante de um enorme trabalho educador do qual os cristãos de hoje devem se aproximar.

--ANTÚNEZ: Em que sentido se entende a afirmação de que "o núcleo de nossa crise cultural reside na atual desestabilização do ético?"

--RATZINGER: Prescindir da questão da verdade também liquida a norma ética. Se não sabemos o que é verdade, tampouco podemos saber o que está bem, e nem sequer o bem em absoluto. O bem é substituído pelo "melhor", vale dizer, pelo cálculo das consequências de uma ação. Na realidade, para dizer sem rodeios, isto significa que o bem se vê expulso, favorecendo-se o útil em seu lugar. O homem vive, por assim dizer, com olhos e ouvidos fechados à mensagem de Deus no mundo. Mas, se consideramos que a verdade e o bem constituem o coração de toda cultura, é fácil deduzir as consequências que se seguem da progressiva difusão de tal postura.

--ANTÚNEZ: Nesse sentido, poderia Vossa Eminência comentar de qual maneira uma encíclica como a "Veritatis Splendor" viria justamente ao encontro de algumas das necessidades mais angustiantes de nosso tempo?

--RATZINGER: Em primeiro lugar e antes de toda outra consideração, a encíclica é um texto fiel, que guia nosso olhar para Cristo, porque Ele nos dá "palavras de vida eterna" (Jo 6,68). No entanto, também é um texto que se dirige à humanidade como um todo. Certamente a fé cristã vai mais além do que a razão pura consegue reconhecer, mas é parte de suas convicções fundamentais que Cristo é o Logos, isto é, a razão criadora de Deus, da qual procede o mundo e que se reflete em nosso juízo. O apóstolo Paulo, que falou com tanta ênfase da novidade e da unicidade do cristianismo, ao mesmo tempo destacou que o preceito moral descrito na Sagrada Escritura coincide com aquele que "está escrito em nossos corações, testificando-o nossa consciência" (Rm 2,15). É verdade que, com frequência, essa voz de nosso coração, a consciência, é esmagada pelos ruídos secundários de nossa vida. A consciência pode se tornar cega, por assim dizer. Precisamos receber as lições de revisão da fé, que voltam a despertá-la, e assim novamente tornar perceptível a voz do Criador em nós, suas criaturas. A Encíclica fala a partir da fé, mas justamente por isso fala à razão e luta pelo destino do homem nesta época. A Encíclica insiste muito decididamente que a moral não é questão de acordos. Neste caso estaria submetida ao jogo das maiorias. Ao invés disso, a moral se baseia na ordem interna da própria realidade: a criação carrega a moral em si. Estamos começando a ver isto novamente nos urgentes problemas ecológicos. Voltamos a perceber que não devemos fazer tudo o que conseguimos. Constatamos que devemos respeitar a dignidade das criaturas. Com maior razão então devemos voltar também a compreender que justamente o ser humano carrega em si uma dignidade e um mandato interior que permanecem através de todas as mudanças da história. O homem é sempre homem. Sua dignidade essencial é sempre a mesma. Por isso existem condutas que nunca poderão chegar a ser boas, mas que sempre serão incompatíveis com o respeito ao homem e à dignidade que vem de Deus e que ele carrega em si. O Papa mostra com grande poder de persuasão na Encíclica que o problema fundamental de nosso tempo é um problema moral. Os problemas econômicos, sociais e políticos seguirão sendo insolúveis se não se encara essa realidade central. E o Papa demonstra que o problema moral não pode ser separado da questão da verdade. Esta, por sua parte, está indissoluvelmente unida ao problema da busca de Deus.

Paganismo pós-cristão

--ANTÚNEZ: A virulência de certa antirreligiosidade manifestada em meios de comunicação de alguns países do mundo rico e industrializado está levando alguns católicos a pensarem em um desenvolvimento da vida cristã até certo ponto catacumbal, ou ao menos que renuncia à projeção social da mesma. Entretanto, o ponto 2105 do Catecismo parece postular o contrário.

--RATZINGER: Existe atualmente um novo interesse pela religião. A ideia de que a religião desapareceria com a progressiva cientificação do mundo demonstrou ser um erro. É verdade que ao mesmo tempo existe um êxodo progressivo da Igreja. Aos homens a fé lhes parece demasiado sóbria, e sua exigência interior demasiado grande. Buscam formas religiosas que, por assim dizer, prometem um contato mais rápido com o mistério, e assim, uma satisfação emocional imediatamente perceptível. A meu modo de ver, a crescente animosidade de alguns meios de comunicação social contra a Igreja está condicionada antes de tudo pelo relativismo intelectual e moral. Para este, a Igreja é perturbadora e inclusive parece ser uma ameaça pessoal. Hoje, ainda não podemos prever as situações que podem ocorrer no futuro para o cristão e para a Igreja. Mas ainda se a Igreja fosse expulsa cada vez mais da vida pública, seguirá existindo sua missão de lembrar Deus a toda a sociedade. Os sistemas ateístas que dominaram por tantas décadas as nações do Leste nos mostraram até onde é conduzida uma sociedade sem Deus.

Uma sociedade que conscientemente exclui Deus e O relega totalmente ao privado se autodestrói. Por isso os cristãos simplesmente têm a obrigação frente ao mundo de dar fé de Deus publicamente, e assim, de manter presentes os valores e verdades, sem os quais, em última análise, não pode existir convivência humana suportável.

--ANTÚNEZ: João Paulo II se lamentou de que "a cultura contemporânea está, em grande proporção, seguindo a ilusão de um humanismo sem Deus". Esta ilusão também tem algo a ver com a proliferação das seitas?

--RATZINGER: Penso que o fenômeno das seitas deve ser distinguido da tendência de um humanismo sem Deus. Ainda dentro do amplo fenômeno "seita" se encontram diferenças significativas. Antes de tudo, eu gostaria de distinguir entre as seitas que querem ocupar o terreno do cristianismo e as seitas sincretistas que recorrem em grande medida a elementos pagãos e buscam e oferecem o mágico, o oculto. A maioria das seitas cristãs, ao contrário, se baseiam seguramente na aspiração a uma comunidade abarcável, a um sentimento de proteção, a uma interpretação simples da Bíblia, sem vínculos históricos nem institucionais. A desagregação consequente aqui já está programada de antemão, porque a comunidade pequena também cria instituições e desenvolve sua história, de modo que necessariamente terão que ocorrer novos êxodos. No entanto, são mais perigosas as seitas sincretistas, onde se produz facilmente uma perversão do religioso: não é o homem quem serve a Deus, mas sim se serve do divino e trata de dominá-lo. Neste caso existem logo formas progressivas de degeneração do religioso, que destroem sua verdadeira essência desde a base. Recentemente li que diante dos 3.000 sacerdotes que há hoje em dia em Milão, existem ali 4.000 magos. Aqui a ausência de fé e a superstição se confundem intimamente. Atualmente se vê que a falta de fé degenera forçosa e irresistivelmente em superstição, e que o racionalismo original (ou também humanismo) produz um paganismo pós-cristão com estranhas mesclas de racionalismo, técnica e magia: daqui em diante teremos que nos preocupar mais que até agora com estas relações.

--ANTÚNEZ: Salientando a necessidade essencial para os cristãos de dar testemunho de um Deus vivo, Vossa Eminência assinalou que um dos mais graves danos para estes provém do refugiar-se em certo moralismo para, assim, resultar afinal mais compreensíveis e aceitáveis em um mundo secularizado. Poderia nos explicar o alcance exato desse equívoco?

--RATZINGER: A redução do cristianismo a uma entidade moral já existiu no Estado enciclopedista do final do século XVIII e século XIX. O cristianismo se media por sua utilidade para o Estado. Devia se preocupar com a educação moral, com o que garantia o funcionamento da vida social. As realidades mais profundas do cristianismo, a fé no Deus uno e trino, na salvação por Jesus Cristo, na graça divina e na nova vida divina dentro de nós eram consideradas inúteis. Mas lhes era permitido existir, porque de alguma forma essas realidades estavam entrelaçadas com o serviço moral que a fé prestava à humanidade. Esta era uma visão a partir de fora, a partir da autoridade estatal, que naturalmente não pôde deixar de exercer efeitos no interno.

Hoje, na própria Igreja, é grande a tentação de apresentar antes de tudo o valor útil da fé e de atribuir menor importância a todo o resto. A Igreja quer intervir no mundo, mas na atmosfera profana do presente não se podem representar os grandes princípios da fé. Assim, se limita ao que pode ser compreendido por todos. Mas o que no começo só pretendia ser uma renúncia imposta pelas circunstâncias, nesse meio tempo já foi elaborado como teoria: a medida de todas as religiões seria sua contribuição à práxis da libertação. Na realidade, as religiões existiriam para esse fim; assim nos dizem os modernos teóricos do cristianismo, inclusive teólogos. Sob essa afirmação também poderia se dar lugar, então, ao "ecumenismo das religiões". Às religiões individuais é permitido conservar seus símbolos, suas formas de culto e seus "mitos", mas lhes é exigido considerarem-se unidas no conceito de que tudo isso serve para aumentar o potencial das forças de libertação no mundo. Diante dessa abordagem, naturalmente devemos nos perguntar em primeiro lugar o que se deve entender por liberdade. Mas essa questão mais prática é precedida por outro problema fundamental: aqui a verdade é substituída pela "práxis" e a fé se reduz à utilidade. Mas a utilidade da fé (que na realidade existe) já não se produz quando ela só é procurada em função dessa utilidade. A força moral da fé está ligada à verdade de nosso encontro com o Deus vivo. A grandeza que a fé cristã levou às questões sociais e políticas do mundo sempre nasceu do amor a Cristo, da força salvadora de Sua Paixão. Ali onde o cristianismo se reduz à moral, ele morre precisamente como força moral.

--ANTÚNEZ: Em uma das declarações feitas pelos participantes no sínodo dos Bispos da Europa, celebrado em Roma em dezembro de 1991, concluída já então a morte política do sistema comunista, se afirma: "Depois do desmoronamento do comunismo, existe ainda a possibilidade ideológica de pensar o homem fora da cultura, fechando-o completamente na esfera da economia. Esta hipótese é promovida pela ideologia que poderíamos chamar de 'ocidentalismo' ou da 'sociedade de consumo', ou da 'sociedade permissiva'. Para ela, a identidade do homem se define exaustivamente pelo que compra ou consome, pela satisfação de suas necessidades materiais e por suas tendências ao gozo. Para ela, as nações ou a Europa não tem significado nem futuro; são apenas fragmentos do mercado mundial". Sobrevive dessa maneira o marxismo, inclusive depois de seu colapso político?

--RATZINGER: Sim, penso que as tendências ideológicas fundamentais do marxismo sobreviveram à queda da figura política que tiveram até agora. Elas também seguirão determinando o conflito espiritual.

Em primeiro lugar, não devemos nos esquecer de que, tanto agora como antes, países importantes são governados por partidos marxistas: China, Vietnã, Coréia do Norte, Cuba. Tampouco o sandinismo desapareceu simplesmente. Partidos mais ou menos comprometidos com o marxismo desempenham um papel importante em alguns países da Europa oriental e ocidental. Por outro lado, entre o liberalismo e o marxismo existiu e continua existindo uma conivência silenciosa em pontos relevantes: uma interpretação do mundo baseada exclusivamente nas forças materiais, a qual logo leva a uma interpretação do homem e da sociedade unicamente com base nos fatores materiais. Se o liberalismo se ergue somente sobre os mecanismos do mercado, no âmbito prático isso é certamente um contraste radical com o controle burocrático central que promovem os sistemas marxistas. Mas também na filosofia radical de mercado predomina um pensamento mecanicista materialista, no qual a liberdade do indivíduo se transforma em parte integrante de um sistema global mecânico que funciona necessariamente e tem leis confiáveis. O liberalismo puro não pode superar o marxismo. Precisamos, como demonstra a Encíclica moral do Papa, de uma concepção da liberdade que esteja ligada à verdade. Precisamos de uma imagem do homem que esteja ligada a Deus. De outra forma não poderemos encontrar o caminho entre a anarquia e o totalitarismo.

--Em anos passados a Congregação para a Doutrina da Fé que Vossa Eminência preside teve que se ocupar largamente de problemas suscitados pela chamada teologia da libertação. Em resposta a ela foi falado de uma teologia da reconciliação.

--RATZINGER: Eu vejo seu fundamento nesse texto tão importante da segunda Epístola aos Coríntios, de São Paulo, no capítulo quinto, no qual existe um resumo da mensagem cristã, de acordo com a qual nós, os apóstolos, somos mensageiros de Deus e em nome de Deus pedimos para nos reconciliar com Deus, em Cristo.

Por conseguinte, a Redenção, o Evangelho, é reconciliação com Deus e temos que dizer que a alienação do homem consiste no fato da sua carência de conciliação consigo mesmo, de estar dividido internamente, e é impossível sua conciliação consigo mesmo se não está em paz com Deus, já que Deus é mais íntimo para o homem que ele mesmo é para si. É por isso que só o ser reconciliado consigo mesmo pode estar em paz com os demais. Isto depende em todo momento de uma paz fundamental, proveniente de estar reconciliado com Deus, e só quem está em conciliação consigo mesmo supera a alienação e como consequência alcança a libertação.

Em tal sentido, esta reconciliação profunda com o ser e, por conseguinte, com Deus e consigo mesmo é o fundamento de toda liberdade e de toda capacidade de reconciliação, de viver em paz e de encontrar uma ordem justa de relações, que produzam um plano de liberdade. Penso, na realidade, que as ideias equivocadas de liberdade e toda esta tendência de autogerar um novo tipo de ser é produto de uma profunda falta de conciliação consigo mesmo, com o ser em si mesmo, e supõe, portanto, a identificação com um ser contrário à realidade de Deus, que é negado porque não se encontra a paz com Ele.

Parece-me que, por outro lado, aqui se toma contato com o fundamento mesmo de um novo conceito positivo de liberdade e de paz, a partir de cuja visão poderia se elaborar toda uma teologia da liberdade e da paz, embebida com toda a riqueza da cristologia, da autêntica eclesiologia.

--ANTÚNEZ: No livro "Informe sobre a Fé", Vossa Eminência diz, a propósito da vida litúrgica, o seguinte: "Chegou-se a crer que só ocorre participação ativa onde teria lugar uma atividade exterior verificável: discursos, palavras, cantos, homilias, leituras, apertos de mão. Mas foi esquecido que o Concílio, por 'actuosa participatio', entende também o silêncio, que permite uma participação verdadeiramente profunda e pessoal, abrindo-nos à escuta pessoal da palavra do Senhor. Agora bem, em certos ritos, não sobrou nem rastro desse silêncio". Até aqui suas palavras. Como podem os fiéis reivindicar seu direito a uma participação verdadeiramente profunda e pessoal frente a certos abusos na celebração litúrgica? Acredita que seja possível o renascer de uma piedade silenciosa e contemplativa que fundamente uma participação profunda e pessoal no povo fiel, nas circunstâncias presentes de uma cultura que favorece à imagem sobre a ideia e à informação sobre a contemplação?

--RATZINGER: Eu creio que sim, não só porque a Igreja conta com a promessa do Senhor de que voltará sempre a seu centro, mas também porque humanamente já estou vendo como a nova geração reencontra o sentido do silêncio, assim como o sentido do esplendor dos símbolos, da objetividade de uma grande liturgia na qual alguém não se representa a si mesmo, não é um animador, mas sim representa o maior mistério que pode haver para todo ser humano, que é a presença do Senhor. Vejo - e isto é muito natural - que o homem e a alma cristã não podem perder completamente o sentido dessa riqueza, que talvez possa contudo obscurecer-se momentaneamente. Mas na juventude, que viveu suficientemente esses novos descobrimentos da informação e da imagem, retorna já o sentido da grande liturgia autêntica e sua dimensão contemplativa. Por outro lado, o clamor do espírito cristão, do povo cristão, é tão forte, que não pode ficar sem resposta. Nesse sentido, espero que com uma nova geração teremos também o regresso autêntico desses elementos tão importantes da liturgia cristã.

O conjunto de relevantes reflexões registradas nessas sucessivas entrevistas com o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, trazem à memória de quem escreve essas linhas certa afirmação que escutou dele na primeira delas, segundo a qual o eixo dos problemas e debates teológicos modernos responderia a razões de caráter eclesiológico e cristológico. Transcorrido mais de cinco anos desde então, e em vista das imensas transformações que sacudiram a vida cultural no início dos anos noventa, o tema volta a se expor. Esta é a opinião que me entrega o Cardeal Ratzinger:

"A mim me parece que atualmente a pergunta sobre Deus propriamente se transformou no verdadeiro problema central. A concepção evolucionista do mundo busca uma explicação sem vazios da realidade, em que a "hipótese Deus" (como em Laplace) se torna definitivamente supérflua. Toda a disposição de ânimo conclui que Deus não acrescenta nada à explicação do mundo, e portanto, nem contribui em nada para resolver minha própria vida. Assim, a questão de se podemos e devemos viver nossa vida com ou sem Deus, hoje se converteu no verdadeiro problema de fundo. Explicações pseudocientíficas da Bíblia que reduzem Jesus à figura de um rabino um pouco estranho, se tornam necessárias quando se presume que Deus não pode ser um sujeito ativo na história. Nesta forma, a cristologia se anula por si só. O Jesus humanitário que afinal lhes resta como sobra é, em último termo, uma figura insignificante. Com isso, também cai por si só a eclesiologia, porque então a Igreja passa a ser só uma organização humana, nada mais. Nesse sentido, hoje eu gostaria de falar de uma clara primazia da pergunta sobre Deus".

Tradução: Rafael Ribeiro

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OK